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segunda-feira, 30 de junho de 2008

Fazer economia é submeter consumo à emergência da poupança

Somos ainda uma economia muito vulnerável. Temos ainda problemas sérios. Por isso, não podemos brincar nessa parte, para que a gente não tenha um retrocesso.

Luis Inácio Lula da Silva


Quando eu era comunista tinha uma relação com a Economia completamente paradoxal: abominava os pilares do capitalismo, entretanto era um consumidor quase compulsivo. Poderia em minha defesa dizer que fora arrebanhado pelo marketing do capital, mas que minha inteligência continuava a apontar o socialismo - tudo em comum - como uma convergência da sociedade humana. Por isso virara um romântico idealista naqueles idos de 1980. Acho que essa minha trajetória é a mesma de muitos contemporâneos.

Parei de achar que poderia mudar o mundo sem primeiro mudar a mim mesmo. Deixei de pensar que todos os erros e defeitos estão nas instituições e não nas pessoas. Abandonei a idéia de que nossas condições sociais são frutos de um determinismo absoluto e hereditário. Uma das mais importantes razões para essa mudança é fruto de experiências pessoais e observação. Quando o governo federal lançou com pompas e circunstâncias o crédito consignado para os aposentados e pensionistas do INSS, não acendi nenhum foguete; ao contrário, preocupei-me assaz. Mais ainda, ao ver artistas famosos da televisão caindo em cima dos nossos idosos para convencê-los de que esses empréstimos eram a última moda “em Paris”. Desesperei-me! Estavam pegando na teia do consumismo até os mais experientes ainda que “obrigados” por seus filhos, netos ou agregados que, não sabendo administrar suas finanças, viram no empréstimo consignado a terceiros uma tábua de sua salvação.

A idéia me é antiga. Mas agora retorna com força de convicção: é preciso educar nossas crianças, jovens e adultos para o consumo. E não é possível esperarmos do Rádio, da TV, dos Jornais e das Revistas que façam esse favor social. A Escola precisa assumir mais esta tarefa. Educação fiscal e para o consumo devem estar nos currículos escolares já.

O país vem alcançando avanços em termos econômicos, mas o fantasma da inflação - filho do consumo exacerbado - paira a poucos metros de nossas cabeças. E o Presidente da República fala com preocupação, pois ninguém quer ser o pai de um processo inflacionário, o retrocesso é péssimo nas biografias. É claro que nossa sociedade tem notícias do tempo em que vivíamos sob forte desvalorização do dinheiro. Tem notícias também dos tempos de escassez de energia elétrica e de combustíveis automotivos. Todos ficaram sabendo disso, mas poucos aprenderam com isso. Não fossem verdades esses lapsos de memória pessoal e coletiva nossas contas de energia elétrica não teriam voltado a apresentar um consumo igual ou superior ao dos tempos de pré-apagão. Não basta ter recordações disso, é preciso ter aprendido com isso.

Fico observando os trabalhadores que estão passando por “aperto” financeiro. Têm um traço comum, vulgar mesmo: todos acreditam que precisam de aumento de renda. Coisas do tipo empréstimo financeiro pessoal (CDC, LIS, Cartão de Crédito, Agiotas etc.); as menos insensatas correm atrás de um trabalho extra (bico, biscate, hora-extra, plantão, GLP, AJT etc.). Entretanto, poucos, poucos mesmo acordam na segunda-feira dispostos a poupar.

Ora, na grande maioria dos casos a solução não está no aumento da renda - panacéia para o diagnóstico apressado da penúria financeira; mas na poupança - medicamento tópico para um prognóstico de sucesso. Conheço pessoas que, por mais que seu salário seja o que acham que deveria ser, jamais alcançarão estabilidade financeira.

O jornalista norte-americano Orison Marden, morto em 1924, já dizia que “a economia consiste em saber gastar e a poupança em saber guardar". Fosse ainda vivo, certamente diria que “saber gastar” e “poupança” são absolutamente a mesma coisa. Por isso insisto em que fazer economia é submeter os objetivos do consumo à emergência da poupança.

Tive um chefe que sempre dizia ser o problema de seus subordinados não o ganhar pouco, mas o gastar muito. Eu o corrijo e desfaço sua antítese: gastar mal. E onde quer que ele esteja agora, se pudesse ler este artigo se sentiria um professor que não me fez apenas tomar conhecimento das coisas, mas me fez aprendê-las.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

3 comentários:

Eduardo disse...

Olá, Zé!O artigo é oportuno, tendo em vista a realidade em que vivemos. Inclusive o consumismo desenfreado é um dos fatores geradores da má qualidade de vida de muitos. Um abraço, aguardo os próximos!

Júlio Teixeira Sales disse...

O jornalista norte-americano Orison Marden, morto em 1924, já dizia que “a economia consiste em saber gastar e a poupança em saber guardar". Zé, achei o artigo interessante. Ele nos mostra como os jovens influenciam até mesmo os mais experientes em relação a fazer empréstimos ou a ir até agiotas.isso faz com que muitas pessoas "fiquem no vermelho" e não consigam se recuperar financeiramente.
Acho que o nosso mundo está muito desorganizado, por isso,a educação econômica deveria ser dada também nas escolas, e não somente algumas orientações passadas por nossos pais de como devemos lidar com o dinheiro. grande abração!!!!!

Camila disse...

Confesso que li o começo e pensei: ah não, mais um dos que se arrependeu do que foi mais novo e agora quer gritar como os sonhos estão mortos e não há nada a se fazer.
Felizmente, encontrei algo oposto, porque o grito é muito mais uma preocupação com o futuro do país que falas de um desiludido. Concordo plenamente que é necessário educar nossas crianças, só acrescento que esse papel nunca deveria ter sido jogado apenas para a escola. O resultado estamos vendo aí.