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sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

SEM REMORSO E SEM VERGONHA

A entrevista do professor de criminologia da University of West London – Graham Brooks – publicada em “O Globo” desse dia 26 de novembro me fez vasculhar o dicionário. É que o especialista em anticorrupção, entre outras coisas, disse que é padrão entre os criminosos de colarinho branco “a falta de remorso”. Faz tanto tempo que não lia ou ouvia esta expressão! Não me contive em ir relembrar com argumento de autoridade seu significado. No resumo, o remorso é “um sentimento de aflição ou tristeza” por que passa uma pessoa que tenha cometido um ato reprovável.Lembrei-me imediatamente de quando era criança e tinha medo de colar nos testes e provas. Se tentasse olhar a prova do colega ao lado ou, num assomo de ousadia, folheasse o caderno sob a carteira tentando ler com o indicador a resposta esquecida, parecia-me que todos saberiam o que eu estava fazendo. Chegava a sentir uma placa colada à testa onde se lia em letras garrafais: ESTOU COLANDO. Até aqui, compreendo que o maior sentimento em jogo era o medo. Acho que mais: o pavor de ser pego fazendo algo indevido, desonesto, errado, feio. Aliás, essa era mesma a dimensão que tinha o malfeito antigamente: contrário à razão; que engana alguém; um equívoco; e que é desagradável. 
CCJ da ALERJ aprovando o parecer pela soltura dos
 deputados estaduais do PMDB Jorge Picciani, Paulo
Melo e Edson Albertassi. 
Com uma professora em particular, dona Leíde Dutra, eu e a maioria dos colegas sentíamos remorso antecipado só de pensar em colar alguma questão nos testes dela. A amizade com que nos tratava fazia-nos sentir uma dor profunda só de pensar em trai-la lançando mão de algum meio ilícito para acertarmos a resposta quando não sabíamos ou não nos lembrávamos. Aí já não era simplesmente o medo de ser pego em flagrante delito. Era algo mais. Tratava-se de um juízo acerca do que é certo e do que é errado. Além do que, se caíamos em tentação e cometíamos um ilícito, o remorso ficava corrosivo até provocar um profundo arrependimento capaz de nos fazer pedir desculpas e tentar reparar o erro. O malfeito, naquele tempo, provocava um constrangimento ético, uma vergonha na cara, um abatimento moral normalmente retratado numa tristeza que não se pode esconder.
Mas, certamente, não são da mesma essência dessas jovialidades os crimes do colarinho branco. Ao contrário, além de sua natureza econômica e política, essa espécie de delito, em geral, é praticado por alguém que integra a ordem social, que tem status, que se apresenta respeitável. Aliás, a elite tem se assustado bastante nestes tempos em que, ao contrário da crença quase total, a conduta criminosa não habita exclusivamente as parcelas marginalizadas da sociedade. Hoje, vê-se a maioria dos homens públicos há pouco tão respeitáveis, tão senhores de si, tão inatingíveis irem parar na cadeia sob a acusação de corrupção ativa e passiva, suborno, extorsão, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, associação criminosa etc.
Concordo que falta remorso a esses criminosos. Na mesma medida, sobra um sentimento patrimonialista estupendo. Tratam a coisa pública como sua e são capazes de jurar de pés juntos que a propina e o suborno são justiça salarial feitas a si, por tanto bem que fazem ao povo no serviço público. De outro modo, não consigo entender a falta de limite desses políticos em utilizar seus cargos para, no exercício da função pública, roubar e deixar que roubem. A cada dia, assoma-nos a sensação de que fazem isso sem parar em todo o tempo de seus mandatos e fora deles. E continuarão a fazer, agora que, no dizer do novo diretor geral da Polícia Federal, “uma única mala talvez seja insuficiente para provar crime”.
Placar da votação em plenário dos
deputados presos na operação
Cadeia Velha.
O caso da criminalidade por parte de dirigentes políticos no Estado do Rio de Janeiro é emblemático. As três últimas e ruidosas prisões – dois ex-presidentes da ALERJ mais o deputado líder do governo –, foram determinadas pelo TRF-2 depois que ALERJ exorbitou de sua competência. É assustador! Mesmo tendo consciência das distorções do nosso sistema eleitoral, da capacidade de blindagem desses políticos, e do desserviço do foro privilegiado não era possível saber que o sistema estava assim tão completamente corroído. Confesso que não imaginava que a maioria dos deputados estaduais do Rio tivessem tanta falta de remorso ao traírem a vontade popular para tentar salvar a pele de seus pares ao arrepio da lei, da ética e da moral.
Publicado na OFF-dezembro/2017

domingo, 5 de novembro de 2017

DE PONTA CABEÇA


Tenho a sensação de que o Brasil está irremediavelmente de ponta cabeça. Não é de hoje. Já faz um tempinho que as coisas andam estranhas por aqui. Pasmo em ver que sempre, a cada dia, menos pessoas se assustam com o que acontece na política e na administração pública do país. Nesse ponto, ando me perguntando se entramos definitivamente no processo de acostumamento - aquele sobre o qual Marina Colasanti nos alertava de que “a gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer”. Espanto-me ainda, mas aos poucos vou me acostumando com a distância tão grande havida agora entre a sociedade e seus representantes no Congresso Nacional. Que processo eleitoral é esse no qual o povo elege bancadas disso e daquilo e nenhuma que o defenda e/ou que fiscalize as contas públicas com honestidade? Olhe para Brasília! Veja o Senado e a Câmara! Têm bancada dos parentes para perpetuar os privilégios herdados nas castas e aprofundar o parentismo na política; das empreiteiras e construtoras para ganhar obras superfaturadas corrompendo mandatos e biografias a fim de que se enriqueçam para sempre; ruralista e do agronegócio para trocar o conceito de trabalho escravo, aumentar o custo das indenizações de terra improdutiva destinada à reforma agrária, para desmatar até que não fique árvore sobre a terra; evangélica para desonerar totalmente a atividade financeira das igrejas, impingir uma pauta conservadora e burra à sociedade, e para surrupiar a laicidade do Estado; dos empresários endividados para conseguir empréstimos a fundo perdido e perdão de suas dívidas com a previdência principalmente; dos estados quebrados por má gestão para que aumentem, entre outras coisas, o desconto previdenciário do funcionalismo público; da bala para armar todo mundo sem muitas exigências botando abaixo o Estatuto do Desarmamento, e aprovar a pena de morte e a antecipação da maioridade penal; da indústria farmacêutica para liberar remédios que são proibidos em outros países; dos planos de saúde e da previdência privada dos bancos para aumentar o valor das mensalidade e deixar os velhinhos e os doentes crônicos de fora de uma vez por todas, e para defenestrar a previdência pública com o propósito de convencer o mercado a comprar seu produto de longo prazo sem garantia; da mineração para aliviar os poluidores do meio ambiente, da bola para anistiar time de futebol que não paga impostos, e por aí vai. E nós? O povo não tem bancada alguma.
Quem tem bancada é outra coisa. Veja a bancada da base governista! Não foram muito diferentes as duas votações em que a Câmara escolheu proteger o Michel Temer das investigações da PGR sobre a suspeita de crimes de corrupção passiva (1ª denúncia) e formação de quadrilha e obstrução da justiça (2ª denúncia). Diferente foi o jeito de a sociedade encarar a decisão dos deputados. Se na primeira ainda havia expectativas sobre como fulano e sicrano votariam, agora parece que já estávamos acostumados a que os deputados, no mínimo mais de 172, livrariam o presidente da investigação. 
Cai por terra um axioma típico para casos como esse. A sabedoria popular dizendo: “quem não deve não precisa temer”. Mas agora é assim: mesmo quem deve não precisa temer desde que... tenha bancada, né?!
A política brasileira está fazendo dos agrupamentos e frentes parlamentares associações para o crime. Um bando de gente muito unida na hora de preservar interesses e garantir o financiamento de suas campanhas. É assim que, acossados por denúncias da Lava-jato, a maioria dos deputados faz parte da base do governo e, claro, votaram, nas duas ocasiões (agosto e outubro) para blindar Temer. Contudo, exigem cargos e liberação de emendas.
Na outra câmara, o senado federal derruba decisão da 1ª turma do STF de manter afastado do cargo, o senador Aécio Neves. O moço é acusado de corrupção e obstrução da Justiça por ter pedido 2 milhões de reais à Joesley Batista, além de ter tentado impedir o avanço da investigação. Por termos um bando de senadores investigados por corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça etc. o resultado não poderia ser diferente: preservação da espécie.
Aí é quando abandonamos os políticos com mandato e pensamos que só nos resta o Supremo. SQN! No STF, os ministros brigam de perder as penas, e batem boca dentro e fora do plenário e se acusam mutuamente por malfeitos com direito à chamada nos principais telejornais.
Não dá ainda pra dizer, se nos acostumamos - e assim nada nos surpreende mais - ou se o povo já desistiu dos políticos nesse festival de besteiras que assola o país. Por falar nisso, talvez estejamos no momento mais fatídico daquela corda bamba em que nos vislumbrou Stanislaw Ponte Preta: “Restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”!

Publicado na OFF - NOVEMBRO/2017

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

ENQUANTO NÃO VEM A CHUVA

Quando se vê, já é outubro. E o ano, que tinha começado agorinha, já tá pra virar. Em dois ou três meses – nunca se sabe ao certo, pois o tempo não é feito somente de cronologia –, que tendem a passar rapidinho, puf. Foi-se.
O último mês do ano nem se fala! É aquela sensação de que não vai dar tempo. Vai ficar pelo caminho a grande maioria dos projetos sonhados. Certa vez eu disse aqui, em OFF, que dezembro é um mês que não cabe em si. Afinal, são muitas confraternizações que preparam o Natal e, depois, o Ano Novo – uma festa que, no fim, parece pertencer mais ao ano que passou do que ao que está chegando.
Ah, novembro! Nem sabemos ao certo como acontece de haver um mês tão galopante! É uma antecipação, sem dúvida! É um making of, para dar a isso um tom anglófilo. São apenas 4 finais de semana, mas em compensação teremos 3 ou 4 feriados e, a depender da economia que os administradores da coisa pública topem fazer... pelo menos uma sexta-feira de recesso contra 17 dias úteis para sentir o pulso de quem irá sobreviver. Outubro fecha o tríduo e o final de mais um ano. Esse mês, originalmente, era mais grandalhão. Daí arranjaram um feriado para cravar quase no meio dele e isso lhe atenuou a duração. A mim, traz sempre a sensação de que estou definitivamente no segundo tempo.
Agora, em muitos lugares do mundo é primavera. Menos em Itaperuna. Aqui na pedra quente - digo, na pedra preta - sempre é meia estação. Sim, por essas bandas temos o verão-outono, verão-inverno, verão-primavera e verão-verão. Tivesse nascido no Noroeste Fluminense, Mário Quintana, para poetizar a rápida passagem do tempo, por certo teria feito umas linhas dizendo que “quando se vê, já é verão”.
Quando eu era criança, não enfrentávamos esse clima de deserto que se instalou definitivamente. O regime de chuvas era outro. Tanto que podíamos contar, praticamente durante o ano inteiro, com as poças das pancadas d’água para uma das brincadeiras de maior apelo entre a criançada: reparar o espetáculo que há nas poças d’água. O reflexo de tudo nelas. Pisá-las como num batismo de pés descalços por condição, ou por opção preferencial. E o apogeu: num movimento atlético, com a parte de baixo do pé, chutar para mandar a poça inteira de água barrenta no outro. Porque o barro torna a brincadeira mais original e emocionante. Tudo feito com uma gritaria combinada. Fazia sentido aquele catarro escorregadio limpado com as costas das mãos. A umidade relativa do ar estava sempre a nosso favor.
Eventualmente havia tempos secos. Nessas ocasiões, o Muriaé e o Carangola minguavam mostrando seus esqueletos de pedra. A serpente mansa corria límpida e esquálida no desvão das rochas. E se acreditava que fazendo procissões e rezas ao pé de um cruzeiro a chuva desceria. E nos prontificávamos com esperança. Entretanto eram raros os anos em que os períodos de estiagem se prolongavam demais como vêm sendo ultimamente. E mesmo rezando mais, e mesmo fazendo procissão de whatsapp em correntes intermináveis, a chuva cada vez demora mais, e dura menos, como se fora um castigo.
Todavia já é outubro e certamente choveu. É possível que a água da chuva, mesmo que pouca, tenha apagado da memória social o aperto das consequências e o desmazelo sobre as causas. Novamente fazendo surgir a indiferença atitudinal. Somente no ano que vem, entre junho e setembro a gente volta a se mobilizar pro lamento, pra dança e pra oração pela chuva.
Para fazer diferente desta vez a gente pode adotar um princípio confuciano bem bacana e útil: “o que eu ouço, esqueço. O que eu vejo, lembro. O que eu faço, aprendo”. Neste dia 8 de outubro, a partir das 9 horas, na Praça de Skate, todo mundo está convidado para o ABRAÇO NO RIO MURIAÉ.

Publicado na OFF - OUTUBRO/2017

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

PREFEITOS SEMPRE TÊM CALCANHAR DE AQUILES


Faz 20 anos que moro no mesmo endereço. Antes experimentamos um monte de casas nas quais pagávamos o aluguel sofrido que dormia debaixo do travesseiro, como se diz. Quando viemos aqui pro Loteamento João Bedim contávamos nos dedos das mãos os vizinhos num raio de 300 metros. Foram tempos desbravadores. Se chovia, tornando a estrada um lamaçal, o ônibus não passava. Para ir trabalhar, saíamos de casa com sacos plásticos amarrados nos pés pelo menos até o calçadão do Claudão, que era o único indício de presença do poder público entre a cidade e nós. No mais, podíamos cantar alegremente nosso fugere urbe com Agepê: “moro onde não mora ninguém/É lá que eu me sinto bem”. A despeito da ausência de um montão de serviços da municipalidade, tínhamos a tranquilidade de armar uma rede de vôlei em plena rua; jogar futebol num terreno baldio, ir dormir com o coaxar das rãs; e ser acordado todas as manhãs com o mugido do gado pastando à porta.
Não sei se no 2º ou no 3º mandato de Péricles, finalmente lançaram asfalto no que hoje é a avenida Dep. Dr. Cory Pillar. À época, o secretário de obras esticou, como máquina de pastel, o asfalto e colocou uma camada sobre a rua Joaquim Martins da Silva e adjacências. Que felicidade! Não tínhamos grana pra construir a calçada da casa, mas uma de nossas ruas estava com o asfalto novinho em folha. Uma de nossas ruas, pois – não sei se disse – a residência era de esquina. Morar numa esquina pode ser uma vantagem estratégica. Mas, nesse caso, era uma dificuldade extra. Nos anos que se seguiram nossa vida não foi a mesma. O loteamento cresceu ficando cada vez mais perto do centro da cidade. Os automóveis passavam céleres pelas ruas pavimentadas. Entretanto, a minha outra rua, a Félix Tavares de Oliveira, estava no osso. Quando chovia, era só barro e quando secava, poeira. As pessoas pulavam pras calçadas, que agora pudéramos construir, pra fugirem do atoleiro.
Naquele tempo, o que funcionava no atendimento às demandas da população era o pistolão – alguém influente, com mandato ou não, que tendo carreado muitos votos para o prefeito eleito, continuava cheio de “moral” para a eleição seguinte. Pobre de nós! No João Bedim não tinha isso. Éramos poucos moradores e os políticos nos consideravam invisíveis e nossos problemas desimportantes. Faziam promessas: muitas e cridas; mas não cumpridas.
Em 2006, sob o governo de Jair Bittencourt, num stand da prefeitura, montado numa das edições da Merco Noroeste, descobrimos num mapa que a nossa rua JÁ ERA CALÇADA. Como assim?! É! Pra todos os efeitos legais, a rua estava pavimentada. Ficamos com aquela sensação de cônjuge traído: morávamos numa rua asfaltada, todo mundo na prefeitura sabia, menos nós. Que loucura! O barro e a poeira que assomavam a casa seria fruto da imaginação?
Fato mesmo é que a rua Félix T. de Oliveira está aqui. Nuazinha. Às vezes um cabeça coroada manda dar uma patrolada nela. Deve ser porque a mãe dele não mora aqui. Sim! Pois toda vez que a máquina passa na rua é pra piorar. Se chover, vira areia movediça. Mas se não chover, intoxica. A poeira entra até por orifícios inimagináveis. Aproveito o espaço da OFF pra pedir encarecidamente que se for pra não pavimentar a rua, não queiram fazer favorzinho meia tigela. Pelo menos com a terra assentada, o pó e a lama são um pouco menos. Até ia me esquecendo de dizer que ganhamos há coisa de uns 6 anos dois bueiros, à guisa de portal, que funcionam de modo invertido: eles não captam a água pluvial. É o contrário! Quando chove, saem coisas de dentro deles para invadir a rua.
É por isso que considero a Félix Tavares um Benchmarking às avessas. Elegi a rua a RÉGUA da administração pública, o Calcanhar de Aquiles dos prefeitos. Da minha janela lateral, todo dia, quando olho pra ela “avalio” o mandatário da cidade. Faço isso desde o início do século. Comecei pelo que mentirosamente a proclamou pavimentada. Considero todos os outros, cinco ou seis prefeitos que se sucederam e a mantiveram descalçada, como coniventes e prevaricadores. O atual pode, se quiser, mudar seu destino. Pra isso, tem que ser diferente dos outros; não basta parecer.
Publicado na OFF - setembro/2017