Fumei desde os 11 anos
de idade. Isso significa que cultivara este hábito, ou vício, ou dependência
por mais ou menos 40 anos. Esse é um tempo suficiente para tornar qualquer
indivíduo um especialista em tabagismo. É por isso que os fumantes sabem mais
que todas as outras pessoas sobre os malefícios que o fumo causa no organismo
e, hoje em dia, também no convívio social. Desta forma, nenhum fumante admite
pacificamente ouvir palestras e conselhos sobre os males do consumo de
cigarros. Aliás, vou dizer: nós conhecemos todas e cada uma das razões gerais
para pararmos de fumar.

Acredito que a proibição
da propaganda de cigarros nos meios de comunicação foi um tiro bem no coração
da indústria tabagista. Pelo menos para as pessoas da minha geração, o efeito
dos anúncios em que ídolos apareciam fumando certa marca de cigarros na
televisão – e a trilha sonora, e a produção impecável dos comerciais – era
avassalador para impulsionar o seu consumo. Quem se der ao luxo de pesquisar na
internet vai ficar abismado ao descobrir, por exemplo, que os primeiros
garotos-propaganda da indústria do fumo eram recrutados entre os médicos mais
famosos. Somente quando se começaram os questionamentos sobre os males da
nicotina é que os artistas do cinema e da televisão e os atletas de prestígio
entraram em cena.
Por hora, é a vertente
jurídica que entrou definitivamente na guerra contra o fumo. Está na moda a
restrição de espaço aos fumantes. Leis de todas as esferas do poder têm feito
da vida dos tabagistas um verdadeiro périplo a procura de um lugar onde se
possa fumar sem censura.
Particularmente,
cultivei uma maluca convicção de que o desgaste psicológico da luta pra parar
de fumar não valia ser vivido. Também reforçava essa fuga dizendo para mim
mesmo que eu não tinha tempo nem saco para parar de fumar – um nonsense. Em outra frente defendia o
plantio do tabaco como uma riqueza nacional – não à toa um raminho florido dele
aparece estampado no Brasão de Armas do Brasil. Corri em defesa do emprego de
tantos brasileiros na tabacaria. Caso todo mundo parasse de fumar, a produção
seria minimizada, com consequente desemprego, pois a outra utilidade do tabaco
é a produção de pesticidas, mas em pequena escala. Apregoei a tributação severa
do IPI que incide sobre os cigarros para socorrer as vítimas inocentes e também
as conscientes de inalação de nicotina. É isto que faz o preço do maço de
cigarros ser aumentado mais de uma vez por ano. Com isso sempre me senti
indenizando o serviço de saúde de meu país, e não surrupiando o dinheiro
público como fazem os planos de saúde. Assim, fui me mantendo no grupo, cada
ano menor e mais restrito, daqueles que fogem no meio de uma reunião, por
exemplo, para fazer uma fumacinha num canto aberto liberado ao cigarro ou num
reservado não autorizado onde, como contraventores, fuma-se sofregamente tentando
compensar a abstinência e fazer reserva de nicotina para o próximo capítulo.
Aliás, eu já me encontrava neste estágio do tabagismo: quando se faz uma parada
na viagem de carro ou de ônibus – já que hoje não se fuma mais dentro dos
coletivos que outrora tinham até cinzeiros e acendedores de cigarro – gastamos
a maior parte de nosso tempo fumando para compensar as horas perdidas e fazer
estoque para sobreviver até a próxima parada.
Como fumante, a única
coisa que não fiz foram discursos libertários reclamando das restrições sob a
alegação de que não era democrático nos tirar o direito de cada um estragar sua
vida como quisesse. Não cheguei a esse ponto. Mesmo convencidíssimo a não parar
de fumar, sempre apoiei as medidas de restrição, a proibição da propaganda
tabagista e da venda de cigarros a menores por crer que, se em minha juventude
assim fosse, uma miríade de nós nunca teria aprendido a fumar. Fico me
lembrando de um cunhado que, em nossos tempos de baile, sentia-se muito
frustrado por não saber fumar apesar dos esforços que empreendia para aprender.
Nunca aprendeu! Muito melhor assim.
Neste 23 de abril –
Salve, Jorge! –, gozando o último dia do prolongadíssimo feriado aqui no Estado
do Rio de Janeiro, faz 33 dias que não coloco um cigarro na boca. Melhor do que
isso: não sinto vontade de voltar a me envenenar. Não falo assim por soberba,
pois sei que a minha dependência orgânica e psicológica ainda não foram
vencidas, apenas comemoro o primeiro round
dessa batalha. Não foi um rompante de voluntarismo e queda de braço entre as
vontades que habitam minha psiquê. Contei com a ajuda imprescindível de Elâine
(apoio incondicional, torcida, financiamento e cafuné) e também de um
procedimento medicamentoso durante seis dias, com overdose de nicotina via cutânea,
um investimento de mais ou menos cem reais – acho que o medicamento oferecido
nos postos de saúde tem como destino os cidadãos que não podem pagar.

Já desconfiava fazia
tempo, mas agora acredito piamente que ninguém faz o outro parar de fumar;
pessoas param de fumar porque se convencem que isso é melhor para suas vidas.
Também para os seus dentes e gengivas, seu estômago, suas vias respiratórias,
sua cútis, sua conta bancária, sua urbanidade e sua sustentabilidade.
Publicado na Estilo OFF - maio/2014
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