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quarta-feira, 7 de março de 2012

CONFORME A MÚSICA


É março! Felizmente o verão está de ida e as aulas, de volta. Esse tempo tem uma música especial tocada em todas as ruas, pelas calçadas por onde, principalmente os adolescentes, caminham em direção à escola: a sinfonia das maritacas, como diria o educador Rubem Alves.
Acho que nunca deixei de pensar em Educação. Respiro isso todos os dias refletindo no poder que é dado à Escola. A crença social de que os professores podem encaminhar nossas crianças para a cidadania enquanto lhes vão ajudando a adquirir habilidades e competências para o mundo do trabalho é um presente: uma verdadeira eucaristia, no sentido grego da palavra.
Há uma imagem muito emblemática em minhas lembranças recentes sobre a importância de que gozam os educadores no imaginário popular. A cena é do filme “O Contador de Histórias” (2009 – Brasil), biografia de Roberto Carlos, pedagogo, ex-interno da extinta FEBEM. Era um assalto a banco. A polícia, que não estava em greve, chegou. Os assaltantes fugiram, mas o menor Roberto, arma em punho, acabou detido. A mãe, já dentro de uma Kombi velha, grita em fuga:
_ Tudo bem meu filho... eles vão levar você pra FEBEM. Você vai ter casa, comida e escola.
Por todo o século XX pelejamos por uma luta árdua, mas vitoriosa, pela universalização da matrícula, do acesso à Escola. A despeito das vozes contrárias de que “nem todo mundo nasceu para a escola”, “não posso abrir mão do trabalho do menino na roça”, “escola é pra filho de doutor”, “os pobres vão acabar com a qualidade da academia”, o processo intenso de urbanização iniciado nos anos de 1960 impulsionou as demandas por escolarização e, já nas últimas décadas daquele século, o Brasil precisou forçosamente colocar a Educação na agenda nacional. Inauguramos o séc. XXI com políticas públicas para garantir a permanência dos alunos na escola e, pode-se dizer, com relativo sucesso. Mas, nesse momento, o país ousa mais – correndo contra o prejuízo de 500 anos de colonialismo educacional – para garantir a aprendizagem, diminuir as diferenças e estabelecer a justiça social. Estamos descobrindo que enobrecer a Educação com os modernosos adjetivos “de qualidade”, “de resultados”, “libertadora” etc. só restabelece a malfadada divisão entre ricos e pobres, entre os que podem escolher e os que não têm escolha. Desse modo, Educação para todos é um desafio não apenas de governos e governantes, mas da sociedade, da nação, dos homens e das mulheres que sonham e trabalham por um país justo e próspero.
Há três anos, o Governo do Estado do Rio de Janeiro resolveu dar a volta por cima. Fustigado pelos resultados do Ideb – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – medido em 2009 que, no Ensino Médio, lhe deram a penúltima colocação entre os estados da federação, percebeu que a educação pública precisava ser priorizada de verdade. Tendo à frente o Economista Wilson Risolia, a SEEDUC – Secretaria de Estado de Educação – vem recuperando na Rede o prazer de alunos, professores e gestores pelo processo educacional. Com ansiedade, as comunidades escolares estaduais aguardam o resultado do Ideb 2011, que deve sair em maio ou junho. Não como quem jogou na loteria, mas como uma comunidade que trabalha árdua e afavelmente por alcançar metas e resultados positivos. Já se pode ver a melhoria tanto das condições de infraestrutura quanto pedagógicas numa nova música que se toca nas escolas da rede.
Entretanto, os resultados da melhoria na educação nacional não dependem de iniciativas isoladas nas modalidades de ensino ou na determinação de um ente federado. Por isso, no Estado do Rio, preocupamo-nos não apenas com os esperados bons resultados da rede estadual e da privada também; mas, sobretudo, com a performance das escolas municipais. Isso porque, morando nos municípios, temos uma visão muito mais clara das políticas educacionais que nestas escolas se tocam. No caso de Itaperuna, por exemplo, mas não exclusivamente, temos de admitir como Montesquieu, que é “perigosa a influência dos interesses privados nos negócios públicos"; pois, por aqui, se os políticos não são desonestos, precisam urgentemente recorrer ao photoshop, pois eles agem como tal e, desgraçadamente, se parecem com, e desafinam uma música muito mais para “Se gritar pega ladrão” do que para “Ai, se eu te pego”.

Publicado na Estilo OFF em março/2012

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Questão de Educação


Dizem que o Brasil é um país paradoxal. Eu diria que é extremoso. Quando era moço, ouvia dizer que o nosso país se assemelhava a uma belíndia. Isto queria dizer que, quanto à repartição das riquezas, a nação era uma mistura da rica e pequena Bélgica com a pobre e imensa Índia. De lá pra cá, muita coisa mudou. Os indianos e os brasileiros estão entre as maiores economias do mundo e os belgas... bem, os belgas não estão nesta lista.
Entretanto, o Brasil continua sendo um país de extremos sociais. Embora tenhamos avançado bastante na última década, nossa concentração de renda ainda é um calcanhar de Aquiles. Muita gente, especialista no assunto, gosta de atribuir todas as nossas mazelas à difamada origem luso-afro-indígena. Um grande intelectual chegou a dizer que o Brasil é a mistura da cultura ibérica, que é a cultura do privilégio; a cultura africana, que é a cultura da magia; e a cultura indígena, que é a cultura da indolência. Há quem se encante com esse tipo de explicação. Particularmente, penso que muita dessa verborréia vem depois que certos sábios tomam doses de elixir paregórico.
A panacéia do crescimento econômico, acreditem, é o investimento em educação e não os determinismos étnicos ou estéticos. Não é preciso ser Herculano Quintanilha para saber que os chineses irão fechar o ano de 2011 como tops da economia mundial. É só olhar a revolução que estão fazendo em sua Escola. Podemos dizer mesmo que Educação é sim “um negócio da China”. Em 12 anos, os chineses saíram do 4º para o 1º lugar no quadro de medalhas olímpicas. Não considerem que chegaram à frente de todos exatamente porque os jogos se deram em Pequim. Isso não foi coincidência, mas planejamento e determinação. Em educação propriamente dita, vou amolar você com dois números do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – que mede o aprendizado em Leitura, Matemática e Ciências de alunos com 15 anos. Os chinesinhos ficaram em 1º e em 2º lugares. Entendeu? Não?! É que os organizadores do teste dividiram a China em duas regiões: Shangai e Hong Kong. Sabe em que lugar o Brasil ficou?! Deixa pra lá. Só mais um número: sabe qual é o país onde mais gente quer se tornar professor?! É lá mesmo onde você pensou.
Outro dia, nosso editor mandou-me um e-mail falando do polêmico Projeto de Lei do senador Cristovam Buarque que “Determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas até 2014.” Ele tá paradão – desde 2007 –, lá na Comissão de Constituição e Justiça, esperando desesperadamente por um relator. É que só o povo tem interesse que o projeto vire lei. A mim fica parecendo que o respeitável senador está jogando para a plateia, vez que a ideia tem aparência e cheiro de inconstitucionalidade. Não passa da CCJ. Minha metade vingativa ainda deseja a aprovação do Projeto.
Estudei em escola pública até a 3ª série primária, como se falava. Naquele tempo, a escola pública era muito objetiva. Entretanto meus pais e irmãs mais velhas achavam que o Colégio Bittencourt era melhor para mim. À época, falava-se que a escola particular era onde “papai pagou, passou”. Comigo não foi assim. De qualquer forma, nós éramos o que se podia chamar de belgaleiros. Hoje sou professor na rede pública e reconheço que, a despeito dos esforços que muita gente séria faz, não temos atendido às expectativas por uma escola pública de qualidade, exceto, talvez, na Educação Superior.
A ideia de a matrícula obrigatória em escola pública para os filhos/dependentes de agentes públicos é um extremismo dessa gente que vive num país em que os termômetros vão de 0 a 40 graus na mesma estação. Não se pode querer a qualidade da escola pública e universal à custa do direito de quaisquer cidadãos de matricularem seus filhos onde escolher e puder arcar com os custos, mesmos que esses sejam detentores de mandatos eletivos. Ainda que possam abater no Imposto de Renda os encargos da escolarização, não dá pra contestar o direito à opção. Ninguém, em sã consciência, prefere o que acha pior.
Quando a classe média alta matriculava os seus filhos no, então glorioso, Colégio Estadual Marechal Deodoro da Fonseca, fazia-o por ser aquela escola a melhor de Itaperuna. Quando os professores, mesmo trabalhando também em outros educandários, punham seus filhos a estudar em uma escola pública, criam estar fazendo a coisa certa. Quando a classe média matricular novamente seus rebentos na rede pública, é porque ela estará boa e/ou irá ficar melhor ainda.
O Brasil passa por uma grande reestruturação de sua pirâmide social. Por isso, a Escola Pública – isso inclui governos, gestores e professores – precisa decidir se quer a matrícula dos filhos da nova classe média. Para isso ela precisa melhorar muito. Os new rich compram as bugigangas da Casa & Vídeo, têm celulares pré-pagos e amam modismos musicais; contudo querem botar seus filhos estudando em boas escolas.
Os governos devem cuidar dos extremismos. Não é mais possível conviver com a farta distribuição de bolsas de estudo no exterior, que podem custar até 200 mil dólares aos cofres públicos, e com o pão-durismo da prefeitura de Itaperuna que – por causa de merreca – se nega a providenciar transporte para os nossos universitários que estudam a 100 km daqui. Ah, claro! Precisam, também, considerar a impre$cindibilidade do profissional da educação, já que estamos neste parágrafo falando de dinheiro.
Os gestores e professores precisam buscar com mais afinco melhorar sua formação, inclusive naquilo que está para além dos currículos – estou puxando a orelha, porque existem muitas oportunidades desperdiçadas por aí, atualmente.
Não quero ser extremista; mas, por fim, lembro ao leitor que nos educandários da China, da Coreia e do Japão – tenho notícia – os pais costumam passar uma parte do período integral de estudo de seus filhos observando in loco como se dá a educação na escola. Mas, por aqui...

Publicado na Estilo OFF - setembro/2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Um discurso que eu gostaria de ter feito

Parabéns professora Amanda. Era preciso que alguém, sereno como você, falasse "urbe et orbi" - lá do longínquo Rio Grande do Norte - o que nosso país precisa ouvir. Chega de enganação, de falsas promessas, de redentorismos. O que move a melhoria da Educação não é realmente o salário dos profissionais, mas também, sem um salário minimamente digno, não se tem educação de qualidade. Nesse momento a sociedade precisa ser esclarecida - para além da propaganda enganosa dos Governos - de que se não aumentar para 9 ou 10% do PIB os investimentos nas escolas e, sobretudo, nos profissionais da educação todo remendo é inútil e a falência total do Sistema Educacional iminente.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

É o batidão


Hoje acordei meio proverbial, porque há um tempo em que ser cartesiano demais também cansa. Já estava disposto a me deixar banhar nas águas do senso comum, quando uma estrela cadente veio cair exatamente na minha caixa de e-mail. Uma amiga professora mandou-me o texto do Projeto de Lei 1.671/08 aprovado na Alerj em 1º de setembro, que tratou de transformar o Funk em movimento cultural e musical de caráter popular. Não tenho preconceito musical; mas, preferência. E nisso sou bastante seletivo. Pus-me a ler o texto, pois é melhor ler qualquer coisa do que ser cego. Também porque não aprovo o comportamento de pessoas dadas a assinar sem ler ou que gostam de repetir o “não vi e não gostei”. Outrossim, sempre quero ver as coisas com meus próprios olhos. Pasmei.

A minha octogenária mãe, que já citei um milhão de vezes, encerraria a polêmica com um “gosto não se discute” ou “uns gostam dos olhos; outros, da remela”. Entretanto eu, que não sou filho de peixe, preciso ir de vez em quando à tona respirar o oxigênio da ciência e consertar a vista na luz do conhecimento, diria que gosto é igual à razão: uns têm; outros não. Aliás, houve um tempo que possuía a crença na indiscutibilidade do paladar. Então aprendi a degustar as comidas com os talheres mais convenientes e a ingerir as bebidas nos vasos mais adequados; percebi como isto faz diferença no sabor das coisas. Os meus críticos dirão que é muito mais natural tomar água numa cuia, ou então, que é tudo igual. Eu lhes sugiro que a partir de hoje só tomem líquidos na concha das mãos, e parem de andar vestidos por aí. Além do mais, quem aqui está querendo ser NATURAL? Não abro mão é de ser CULTURAL. Por isso, irei defender sempre que sensibilidade pode ser aprendida. Daí, o gosto musical, a preferência sexual, a criatividade, a apreciação pelo paladar, o olhar, o tato, o olfato, a audição... tudo pode ser educado, segundo a cultura, para o prazer.

Como desgraça pouca é bobagem, querem me fazer crer que o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica do Estado do Rio é um dos piores do Brasil, porque faltava colocar o Funk nos currículos escolares. Já que é de menino que se torce o pepino, a Secretária de Educação, Teresa Porto, quer, parece-me, que os professores se tornem MC’s e DJ’s disso e daquilo. Já imaginou o professor de Literatura sensibilizando seus alunos para a letra, vejamos, de “Nóis Nasceu Pra Ser Patrão” dos escritores Mc’s Pikeno e Menor:

Nóis Nasceu Pra Ser Patrão(2x)

Varios Carros, Varias Moto, No Pescoço Varias Prata De Whisky e Red Bull e No Baile Funk só As Gata.

É O Menor e o DJ Gá Mlk Top é Nóis Então, Gasta mesmo sem miséria nóis nasceu pra ser patrão.

Nóis Nasceu Pra Ser patrão.

Até então, não achava que toda unanimidade era burra. Mas os deputados estaduais foram unânimes e aprovaram o tal projeto em primeira votação. É por essas, e por outras, que deveria ser obrigatório a todo político eleito que matriculasse seus filhos e filhas na escola pública. Assim, talvez, nosso Ideb fosse pras cabeças.

Costumo dizer que há ritmos para se dançar apenas com o corpo e outros de corpo e alma. Grosso modo, pode-se dizer que o esqueleto dança conforme a música; do andamento mais tenro ao mais frenético. Mas que certas modalidades musicais foram concebidas para separar o corpo da alma e nos fazerem voltar à selvageria – ah! –, isso foram. Lembra aí que havia um hit fazendo metalinguagem disso? Por quase 4 minutos, Mc não-sei-das-quantas ia da velocidade 1 à 5, quando os corpos alcançavam um frenesi ou coisa parecida. Como qualificou o pensador italiano Umberto Eco, é a chamada música gastronômica; feita para ser celeremente consumida, de preferência sentado em uma privada: entra pelos ouvidos e vai descendo rapidamente até sair pelo gosto de cada um.

Prefiro a velha e boa MPB, que tem letra e melodia e pode ser escutada pela eternidade. Talvez por isso, a indústria fonográfica – quem não te conhece é que te compra! – me deteste, pois não sinto necessidade de consumir esses produtos de estação que vem colocando nas prateleiras: remasterizações (série Perfil, por exemplo) de qualidade duvidosa cuja propaganda faz os incautos crerem se tratar de gravações inéditas.

Quanto ao Funk ser um movimento cultural e musical de caráter popular, não sei dizer. Quem sabe nos EUA? Lembrei-me agora que os conceitos de cultura e de música já foram pro brejo com corda e tudo. Num país onde o Sarney e o Collor são imortais de academias de letras; os Dj’s se dizem músicos; um microfone da Cidade da Música no Rio de Janeiro custa R$ 15.586,80 aos cofres públicos; o MST continua lutando por terra e sacrificando pés de laranja alheios; os professores ganham menos que os policiais; os juízes mandam pro semiaberto os fujões perigosos e o Congresso Nacional acha que precisamos de mais 10 mil vereadores... Deixa eu me calar, pois em boca fechada não entra mosquito, até porque aqui, no bairro onde moro, eles estão passando das medidas. E... além disso, gosto não se discute mesmo, lamenta-se.


Publicada na Revista CAE - novembro de 2009.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

MÃOS À PALMATÓRIA

As pessoas começam a envelhecer quando dizem “no meu tempo não era assim...”, quando eu era moço...”, “antigamente é que...”. Dizem isso, invariavelmente, por uma dificuldade de compreender e aceitar a realidade. Não estamos falando aqui de idade cronológica; mas mental, comportamental. Ao contrário dos seus contemporâneos, minha mãe sempre diz que tempo bom é o de hoje. E desfia um rosário de dificuldades que viveu na sua juventude em elogio às novas tecnologias que exemplifica com o chuveiro elétrico, o ferro de passar roupas a vapor, o fogão à gás, o liquidificador etc. Ora, até mesmo para este quarentão, é difícil entender a vida sem essas facilidades tecnológicas nem tão novas assim. Acho que herdei dela esse sentimento evolucionista. Não posso admitir que a humanidade ande em algum momento para trás. A história ajuda a compreender o presente e até orienta o futuro. Entretanto, ela não é uma alternativa de vida.

Tenho ouvido muitos discursos surrealistas, sobretudo dentro da Escola, apregoando a volta de certos valores do passado - mais ou menos na base do “vigiar e punir” - que resultassem em joelhos nos caroços de milho, mão à palmatória e que tal. Um saudosismo meio mórbido e fantasioso de que seja possível viver esses tempos tão dinâmicos e inclusivos de hoje na base dos vinte quilômetros por hora, velocidade que os automóveis alcançavam em mil e novecentos e antigamente. E, o que é pior, dentro de ternos de casimira e vestidos plissados.

Neste dia 11 de agosto também se comemora o dia do estudante. Apesar de a data ter sido criada numa referência à instalação de dois cursos de Direito, sempre penso no dia em relação às crianças e aos jovens. Isto porque na minha cabeça a infância e a juventude são os melhores e mais proveitosos momentos para se estudar sistematicamente. Além disso, gosto de ver a vitória da infância e da juventude na luta secular pelo reconhecimento de sua cidadania e de que este período da vida é produtivo, pois estudar é também uma forma de trabalho, ainda não remunerado.

O cientista inglês David Bainbridge, um evolucionista, tem afirmado ser entre os 11 e 20 anos que muitas das habilidades humanas são desenvolvidas. E vai mais adiante: “Sem a adolescência, os seres humanos não passariam de uns bobos incoerentes dotados de um cérebro enorme.”. Muita gente inteligente já sabia disso, mas reluta em aceitar. Já a minha aversão é pela situação que os números do Laboratório de Análise da Violência da Uerj revelaram esses dias. Segundo os dados, “cerca de 33.504 adolescentes brasileiros - de 12 a 18 anos - serão assassinados em um período de 7 anos, que vai de 2006 a 2013”, se nada for feito pelos governos e pela sociedade.

Se continuarmos perdendo nessa proporção os nossos jovens, de um lado pela violência homicida e de outro por uma Escola cujos professores querem uma clientela adestrada e disciplinada que não lhes dê muito trabalho para escolarizar, a falência é certa como o dia amanhecerá, queiramos ou não.

Por isso, desejo prestar esta homenagem a todo estudante desse país. Fazer hoje um mea culpa, por que não?! Somos nós que existimos para você e não o contrário. Desculpe-me e aos meus colegas professores:

Por querê-lo igual aos outros;

Por desdenhar dos seus direitos;

Por debochar do seu desconhecimento;

Por ter feito a pegadinha na avaliação;

Por “valorizar” os seus erros;

Por menosprezar seus acertos;

Por não ter preparado a aula;

Por não entregar os resultados em tempo;

Por compará-lo;

Por não reconhecer o seu time;

Por tentar convencê-lo das minhas verdades;

Por buscar cooptá-lo;

Por ter faltado à aula;

Por ter usado você para uma desculpa;

Por tê-lo chamado de preguiçoso;

Por ter sido deliberadamente injusto com você;

Pela impaciência;

Pela intolerância;

Pela covardia;

Pelo mau juízo;

E por tudo que fez você sofrer.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

Crônica publicada na Revista Canal da Cultura - CAE de agosto/2009

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ver não é coisa natural

Não digam nunca: Isso é natural!
A fim de que nada passe por ser imutável.
Bertolt Brecht


Outro dia um aluno da 1ª série do Ensino Médio produzira um texto que me surpreendeu: escreveu que houve um tempo em que bastava os pais olharem para o filho a fim de que esse entendesse a crítica a seu comportamento e mudasse de atitude. De fato, lembro-me da história do Ademir - um jovem com quem eu trocava revistas de super-heróis em Retiro do Muriaé da década de 1970. Naquele tempo de futebol amador, a gente acompanhava os times na carroceria do caminhão do seu Paulo. O “Dênis” estava lá, mas antes do carro sair, seu pai - um senhor às antigas - chamou o moleque no meio dos colegas: _ Dêni, desce! Cê não encheu a taia e num barreu o terrero, desce.

Não teve jeito. Ele desceu. Não havia espaço e nem tempo para questionar a decisão do pai. Era uma ordem que emanava de uma autoridade, simplesmente. Os companheiros, mãos à boca, contínhamos o riso e o escárnio até que o senhor Saturnino se afastasse levando o rapazinho sorumbático.

O psicologismo, na esteira da (re?)democratização do país, bateu forte contra o que chamou de autoritarismo patriarcal. Entretanto, naquele tempo, não havia pai ou mãe que não soubesse exatamente o que fazer com os filhos, como educá-los, impor-lhes LIMITE.

Hoje encontro dezenas de responsáveis que não conseguem educar crianças e adolescentes. Alguns acham isso muito natural: _ É a evolução, dizem.

Particularmente, penso que aí há mais de banalização da autoridade e de regurgitação da desobediência. Parece que os filhos estão ficando cegos e surdos. A meninada, primeiro, ficou cega: o olhar dos pais já não diz nada, porque essa atitude demanda tempo e sensibilidade de lado a lado e parece que agora já ninguém olha nos olhos de ninguém. Depois as crianças ficaram surdas: Os pais falam - alguns decibéis acima -, mas acho que entra num ouvido e sai pelo outro. Isto quando não estão entupidos com os fones de seus MP3, MP4, celulares etc. Está havendo uma revolução na relação entre pais e filhos. Os resultados podem ser constatados, porém a análise do fenômeno não é nem um pouquinho simples. De toda sorte, não deve ser à toa que venho ouvindo, cada vez mais, pessoas se lembrarem de como foram educadas pelo olhar dos pais. Aliás, o professor Rubem Alves sempre disse que “O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. A primeira tarefa da Educação é ensinar a ver...”.

O ano letivo finalmente começou. Com ele os pais entregam uma cota-parte da tarefa de educar à Escola. Ainda que muitos responsáveis coloquem seus filhos na escola para brincarem; para serem alfabetizados; para aprenderem uma profissão; para fazerem o vestibular; para não serem importunados pelo Conselho Tutelar; para ganharem bolsa família; para ocuparem a criança; para se livrarem dela... a tradição diz que a escola EDUCA.

Não me canso de acreditar que a Escola é melhor do que a Sociedade. Senão, que possibilidades teríamos de melhorar as relações humanas? Muitos críticos da Escola terão uma vasta lista de seus defeitos e mazelas, mas sempre se esquecem de quantas crianças a escola vem salvando de suas famílias. Faz-se isso apesar dos (des)governos.

Aliás, sabemos que a “política” costuma impor uma pedagogia ziguezagueante à escola. Cada governo acha que pode jogar fora todo um trabalho educacional por mera opção “ideológica”. A educação que temos hoje no Brasil, com toda a crítica que se possa fazer, não é projeto de um ou outro governo. Ela vem sendo construída pelos profissionais, educadores que têm dado suas vidas pela crença de que a escola pode educar.

Em geral, os administradores que assumem um mandato, em qualquer esfera, não têm um projeto educacional partidário nem pessoal; têm, às vezes, intenções. É por isso que devem ter a delicadeza de ouvir e ver as pessoas e a realidade. Fico muito triste, e às vezes raivoso, de ver políticos fazendo ingerências na Educação simplesmente por vingança, por perseguição, por clientelismo, por fisiologismo... Em quase 100% das vezes não discutem competência; se vergam à contingência dos favores, das promessas e das dívidas eleitorais.

Também sou a favor de mudanças. Elas seriam necessárias se não fossem inexoráveis. Mas toda mudança deve ser uma construção, principalmente em se tratando da educação pública. Em agosto do ano passado escrevi aqui, em relação ao Ideb de Itaperuna, que “A rede municipal de ensino apresentou números razoáveis que podem ser melhorados. Nas séries iniciais avançamos de 4,6 para 5,0; entretanto, regredimos de 4,5 para 4,3 nas finais. Nosso entendimento é que o maior esforço - leia-se investimento - deve ainda estar concentrado na educação infantil, como já vem sendo feito.”. Portanto, isso é um legado e não despojos.

A nova SEMED precisa levar em conta muitas coisas antes de se arriscar na exacerbada politização dos cargos nas escolas. O governo do Estado do Rio tem investido fortemente na formação dos gestores da sua rede de ensino. Mesmo que esses sejam eleitos pela comunidade escolar, o Estado os trata antes como servidores. Não estou sugerindo eleições nas escolas municipais; apregoo que seu corpo docente seja tratado como servidores públicos, que têm direitos e de quem podemos cobrar deveres e resultados.

Itaperuna vive a síndrome da Educação Colonial: achamo-nos muito importantes, porque temos várias universidades, com múltiplos cursos para todos os gostos e desgostos. Contudo, é preciso que nos lembremos de que mais importante que isso é a Educação Básica. Se esta não for de qualidade, a Educação Superior capenga. Caso não cuidemos de educar nossas crianças e jovens, tempos virão - e eles já estão aí - em que o MEC, que não é cego e nem surdo, se verá na contingência de proibir vestibulares e fechar cursos. Pois se a escola faz o aluno, o aluno faz a escola. Só não vê quem é cego.


Publicado na REVISTA ESTILO OFF em março de 2009.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

azeluiz@oi.com.br

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A INCLUSÃO DIGITAL NO ERJ: O ESTADO DA "ARTE"

A situação é confusa mesmo, como de resto andam confusas as atitudes do governo do Estado. Pra mim, a SEE está "jogando um jogo" pra platéia. Ora cobre a cabeça - na hora que tem gente prestando mais atenção a essa parte - e descobre os pés - com os seus calcanhares de Aquiles - ora cobre os pés e descobre a cabeça. É um jogo meio sem graça tanto de jogar quanto de assistir; pior ainda é quando somos a BOLA de reserva e a da "vez".
O fim da função de OT já foi publicado no DO? Alguém tem essa informação? Caso contrário, por que estamos "correndo" pra voltar à sala de aula?! Nós também estamos jogando esse jogo?!
Lembram que tivemos de assinar um "protocolo de intenções" onde nos comprometíamos a não desistir do jogo antes de a partida acabar?! Lembram?!!!! O documento era unilateral, eu sei; mas a recíproca não tem que ser verdadeira?! Agora o Estado pode simplesmente nos "desconvocar"?! No meio do JOGO?! Cancelar os pontos a favor da Educação que juntos fizemos?! Não devíamos apelar pro juiz? pro bandeirinha, sei lá?! Alguém nesse país do jogo que seja mais coerente?! Ah! por falar nisso, muitos OT fazem um curso de pós-graduação - que só existe em razão desse importante jogo que jogamos contra a time de exclusão - e é um convênio com a federação. O governo do Estado do Rio de Janeiro pode simplesmente pegar a bola, pô-la debaixo do braço e dizer que o jogo está terminado?!
Peraí!!!!!!!!!! Será que não há nenhuma outra saída nesse jogo de muitas perguntas e pouca ou nenhuma resposta? Quem tem um atalho aí, por favor? Nós não podemos simplesmente morrer nesse RPG. Ai!, como ziguezagueia essa política do "ensino"! De quatro em quatro anos se quer mudar as regras do jogo, interromper a partida no meio, distribuir beijinhos pra platéia - que, eta-ferro, é alienadinha - e ainda por cima, mandar os jogadores jogarem em outra freguesia.
Não costumo acompanhar esses motes gritados pelas torcidas, dizer que o país é um país de merda, essas coisas feias. Mas agora sou obrigado a concordar: _Governo de mentira! Educação vil! Manda OT pra sala e finge que não viu. Ou então: _Au! Au! Au! Quem fechou os LIEDs foi o seu Cabral.
Valha-nos Deus! Estamos num jogo perigoso toda a vida. Quantas vidas ainda temos pra gastar nesse jogo?! E, o adversário está jogando sujo. Está nos provocando a fim de que desanimemos e acabemos por abrir mão das estratégias que acreditamos serem as melhores para a peleja.
Parece que a partida foi interrompida... Nenhuma Tv vai noticiar?! Elas adoram um mundo cão. Vamos! Luz, câmera, ação!


Itaperuna, domingo, 18 de março de 2007

A tecnologia da informação (é) e a oportunidade de inclusão

O atual estágio do desenvolvimento da tecnologia é realmente surpreendente. No que diz respeito então às tecnologias da informação, tendo como carro chefe a telemática, é um novo conceito de "Túnel do Tempo" que estamos criando, pois mudaram completamente a utopia do "tele-transporte" - aquela velha idéia de podermos estar presentes em um outro tempo e espaço - que embalou tantas civilizações. Agora, não nos transportamos para um lugar distante, mas trazemos o lugar distante até nós. Essa evolução só pode ser comparada à diáspora do Homo Sapiens, no dizer de Morin1, da raça humana sobre a Terra, nos primórdios da conquista do planeta.
Dito assim, o avanço tecnológico parece ser um empreendimento da humanidade para a humanidade. Entretanto, sabemos que, se evoluímos tanto do ponto de vista das conquistas científicas, o mesmo não ocorre no plano da consciência social. Vê-se mesmo o contrário: quanto mais se avança na produção de bens e serviços de alta tecnologia, mais se amplia também o abismo entre as classes sociais na maioria dos países e no mundo inteiro. Infelizmente, na utopia do professor José M. Moran, ao dizer que "Na sociedade da informação todos estamos reaprendendo a conhecer, a comunicar-nos, a ensinar e a aprender; a integrar o humano e o tecnológico; a integrar o individual, o grupal e o social." o todos é apenas uma generalização ideologizada. De qualquer forma, é preciso não perder a convicção de que, se o espaço da educação não for o da superação dessa diferenças, isso não se dará em outro lugar, pois "A escola é um espaço possível de luta, de denúncia... e de procura de soluções, ainda que precárias e parciais."2
Por outra, é mister reconhecermos que o advento das novas tecnologias, vencidas as amarras econômicas, pode se transformar num equalizador das diferenças, num oportunizador de condições mais justas na busca da superação das distâncias sociais. Basta lembrar que, há pouquíssimo tempo atrás, e perdura até hoje em muitos lugares, somente os indivíduos que viviam nos grandes centros desenvolvidos, ou aqueles que dispunham de recursos para se deslocarem até os mesmos, gozavam do privilégio de poder estudar e se aperfeiçoar profissionalmente. A esse respeito, agora, muita coisa mudou.
Não há dúvida de que a Educação à Distância é um modelo educacional promissor; sobretudo, quando se trata de estudos complementares ou suplementares avançados. Nesse campo, já se provou a sua eficácia, eficiência e efetividade. Mas isso não tira dela, ainda, o caráter meio experimental. Afinal, é preciso que transcorram algumas gerações forjadas nessa metodologia para que se possa dizer, com segurança, que tenha se tornado um modelo seguro.
Uma nova ordem educacional se instala a partir das modernas tecnologias da informação. O próprio fundamento do que chamamos biblioteca se esgarça para dar espaço a uma outra plataforma de pesquisa e armazenamento do saber científico: a webloteca.
Por hora - não se contesta -, o uso da Internet é mais do que solução para o avanço e democratização do conhecimento; ele é inexorável. Daqui para frente, somente através de conexão com a rede mundial se poderá acompanhar o ritmo das exigências e das demandas estabelecidas pela dinâmica da sociedade global.
Destarte, é preciso que lancemos mãos à obra a fim de tornar o ensino à distância uma realidade mais palpável para todos os brasileiros. Para isso é urgente que capacitemos, cada vez mais e melhor, professores de todos os níveis. E, aqui, capacitar é também dar condições para que os mesmos rompam o processo de exclusão digital de que são vítimas em razão da penúria econômica a que lhes têm legado os governos.

Itaperuna, quinta-feira, 14 de abril de 2005.



1 - MORIN, Edgar. Educar na era planetária: o pensamento complexo como método de aprendizagem no erro e na incerteza humana. Trad. Sandra Trabuscco Valenzuela. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNIESCO, 2003.
2 - ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e Martins, Maria Helena Pires - Filosofando, Introdução à Filosofia. 2ª ed. Moderna. São Paulo, 1998.

Administração do "tempus fugit"

Tudo flui e nada permanece; tudo se afasta e nada fica parado.... Você não consegue se banhar duas vezes no mesmo rio, pois outras águas e ainda outras sempre vão fluindo....
Heráclito

Dominar o tempo e o espaço sempre foi o desafio da humanidade. Desde os primórdios, o homem busca entender o tempo em que vive. Foi assim que começamos a sentir a necessidade de marcar o tempo e o espaço para além do que nos permitiam os elementos da natureza - o Sol e a Lua. Dando um salto no tempo, pode-se dizer que a evolução dessa necessidade propiciou a invenção da cartografia e do relógio.
Contemporaneamente, os maiores desafios da sociedade capitalista talvez sejam o armazenamento e a superação da velocidade. Quem não tem dificuldades com espaço para guardar suas coisas? quem não acha que tudo está demorando, quando se está esperando? O tempo e o espaço - que parecem cada vez mais escassos - há muito viraram bens. Nessa lógica, tudo irá ficar doente para sempre porque o tempo, “remédio para todos os males”, anda fugidio.
A Escola, como qualquer instituição humana, não fez outra coisa senão “correr” atrás do tempo. É só termos um olhar diacrônico para ver o “enxugamento” do tempo de formação, por exemplo. Quem tem mais de 40 anos há de se lembrar de aulas aos sábados, de 2ª época. Também do Projeto Minerva e outros, que buscavam fazer com que adultos acertassem o passo de sua formação escolar. Hoje, quantos cursos “ligeiros” são oferecidos a quem “não tem tempo”? A EAD - Educação a Distância - parece ser a catalisação de toda essa “corrida contra” o tempo e o espaço.
No que diz respeito às organizações empresariais, as teorias da Administração Científica se preocuparam basicamente com a produção em menos tempo e em menos espaço possíveis. Em Tempos Modernos, Chaplin - magistralmente - faz a crítica social da corrida pela superação do tempo e do espaço na busca desenfreada pelo lucro.
Mas uma questão primordial a ser discutida nesses tempos dinâmicos é, certamente, que impactos a velocidade supersônica das mudanças acarretam na vida dos indivíduos? Parece que nada matura, tudo é meio superficial ou, por outra, a sensação de que não há mais história, de que tudo é consumível e descartável e de que não nos banharemos na mesma água do rio nunca mais.
Estamos nesse roldão: não há “tempo livre”. Não somos o tempo e assim não temos como fugir. No Pantanal, todas as manhãs um veado acorda sabendo que deve correr mais do que a onça se quiser se manter vivo. Nessas mesmas manhãs a onça acorda sabendo que deve correr mais do que o veado se não quiser morrer de fome. Por isso, não faz diferença se você é onça ou veado; quando o sol nascer você deve começar a correr. O Tony Tornado já cantava isso nos anos 70: “A gente corre na BR-3/ A gente morre na BR-3”.
Professor Zeluiz
Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna