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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ENCHENTES E PEDRAS DE GELO

As águas doces de minha terra,
Mesmo quando revoltas a tomam,
Não são salgadas como as do mar
Onde afogo perene saudade.
   Celso de Freitas

No final do ano passado, lá pelo mês de outubro, a secretaria de obras da Prefeitura de Itaperuna passou finalmente pela minha rua numa operação chamada “tapa buracos”. Reparava aqueles homens – alguns bem jovens; outros de meia idade –, sob sol escaldante, sujos de material asfáltico realizando o que nosso prefeito Paulada, mais tarde, em programa de TV, denominou de “enxugar gelo”. O que chamou mais minha atenção naquela atividade ordinária era a escolha de Sofia que os trabalhadores faziam ao eleger um ou outro buraco para exterminar – essa coisa de cobertor curto. Reparei que não tampavam os buracos menores; somente tratavam mal e mal as cáries graúdas. Era como se determinassem que só as crateras maiores atrapalhavam a circulação de veículos pela rua e que as menores ainda precisariam crescer, ganhar status. E, inevitavelmente, cresceriam. Mas aí, já não era mais problema para aquela turma de enxugadores de gelo. De qualquer forma, todos aqueles buraquinhos destampados e agora tornados adultos engolidores de pessoas, bicicletas, carros eram nada diante da serpente mansa que, inflada pelas chuvas torrenciais de dezembro, prometia mais outra vez sair de seu leito estrangulado a invadir as casas, as ruas e as avenidas das adjacências e mesmo das longicências (para dar a isso um ar mais épico) de seu curso.
Outra enchente devastadora. Aliás, sempre mais avassaladora. Crescidas, agora, por não cuidadas quando eram pequeninas e só bagunçavam a vida das populações ribeirinhas e pobres, principalmente da zona rural das quais nem tínhamos notícias de suas pequenas desgraças, as tormentosas águas do Muriaé como que cobravam seu latifúndio invadido aqui, acolá a alhures por aterros e construções criminosas.
O que foi o início da enchente na virada do ano? Um detalhe! Nada que pudesse atrapalhar a queima de fogos e os shows populares agendados para o réveillon. O prefeito decretou que “nada estrague a festa da virada”. Menos para os moradores da Av. Sá Tinoco, da Cel. Emiliano e outras: gatos escaldados de tanta empulhação, subestimação e desinformação oficial. Dos festejos musipiroetílicos ao ALERTA MÁXIMO da Defesa Civil não transcorreram 24 horas. Nesse ínterim, o poder público municipal dizia que o “nível do rio permanece estável e deve começar a baixar nas próximas horas”; que “o risco de enchente está descartado”; que “não há necessidade de a população fazer qualquer tipo de doação para os desabrigados, pois tudo está sob controle”; que dificilmente esta enchente chegará ao mesmo nível de 2008/2009” etc. etc.
Manso e lento, desce o nosso rio comportado entre os morros de Miraí, e faz-se pia batismal a Muriaé. Ainda pachorrento emoldura Patrocínio. Lânguido, desliza nas pedras por Laje e se apressa pra tangenciar Venâncio. Em Retiro aquieta, sossega e esfumaça-se a fim de encontrar-se com seu par e chegar apressado a Itaperuna. E depois, fazer fanfarra e peraltices na planície de Italva e Cardoso até encontrar-se com o Paraíba, e irem serelepes rumo ao mar. Esse é um curso tranquilo, quando não lhe pisa o rabo a pluvia impetuosa. Mesmo essa também não ameaçaria, não fosse a degradação que impusemos ao rio. O aviltamento é uma longa história de desmatamento, de ocupação imprópria, de morte da mata ciliar, de despejo de lama de bauxita, de esgoto in natura, de agrotóxico e de toda sorte de aparas do consumismo míope, burro e insustentável.
Depois da tempestade, por aqui sempre vêm as promessas. Dizem que há projetos para evitar as cheias do rio. Fala-se em barragens e extravasadores ao custo exorbitante das obras públicas e, pelo jeito, também ao da propina. Existe quem pense até em transposição das águas do Muriaé. Consórcio de construtores adora isso. Tudo faz lembrar um sucesso de Chico Buarque. Só não se sabe, nesse caso, quem é o comandante do Zeppelin nem quem seria a prostituta. O prefeito pede ora 14, ora 40 “milhão”. Afinal, é muito gelo pra enxugar. Ninguém fala em desassoreamento: tirar de dentro do rio o que não lhe pertence; desentupi-lo para que corra naturalmente, sem atropelos, sem turbulências impostadas. Eu nado mais longe. Dizem que nossas ruas e avenidas estão esburacadas, porque as pedras estão “confiscadas” pelo monopólio pedregoso. Vamos retirar então as pedras do caminho do rio ao invés de jogar tanta bosta na Geni.
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Não desisti ainda da raça humana: continuo cultivando Zinnias do outro lado da minha esburacada rua. Mas confesso que o beicinho corporativo da magistratura brasileira contra o controle do CNJ me deixa ressabiado. Parabéns à corregedora Eliana Calmon que está mexendo e remexendo a serpente do autoritarismo e arrogância de 500 anos. Aqui como lá, por que tem gente com tanto medo de avaliação e controle externos?!
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Publicado na Estilo OFF de fevereiro de 2012. 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

No balanço dos dias

Nada como um dia atrás do outro

Tenho essa virtude de esperar

Roberto Correa e Sylvio Son


Pelo Brasil afora, muita gente provavelmente está fazendo análise dos 100 dias de governo municipal. É quase uma lei de imprensa que se façam cobranças, se relembrem promessas, se cobrem atitudes do prefeito empossado em 1º de janeiro. Não sei o quanto há de cabalístico nesse número redondo de dias, mas é fato que nos acostumamos a dividir o ano em seções semestrais, quadrimestrais, bimestrais... coisa de uma mentalidade cartesiana que insiste em nos fazer ver do todo, só uma parte de cada vez. Mas é com essa lógica que a crítica escarninha trabalha. E, ainda costuma usar a maquiagem do senso comum – “pelo andar da carruagem...” – para dar à coisa um ar mais verossímil e sapiente. O diabo é que nessa conta, quase sempre, só entram os débitos (mesmo os de médio e longo prazos); alguns créditos ficam por conta do “não fez mais do que a obrigação”.

De toda forma, os primeiros cem dias do ano não deveriam entrar na conta de nenhum balanço, pois o ano novo nunca começa quando termina o velho. Não é à toa que sempre estamos diante de anos que não terminaram como o de 1968 – dando o que falar e escrever ao Zuenir Ventura – insistindo em se sobrepor até aos recentes anos deste outro século, quando desenterram seus mortos e nos surpreendem com seus fantasmas insepultos. Porque, na verdade na verdade, os trinta-e-um-de-dezembro não encerram nada, apenas a validade da folhinha amarelada pendurada na parede.

Há ainda os anos que não começam. Aliás, acho que os anos não se iniciam aqui no Brasil, pelo menos até o carnaval. Então já são cinzas e ficamos 40 dias esperando a ressurreição que não é um ano novo; mas, um (re)começo.

Gosto de reler uma crônica do Veríssimo intitulada “Caderno novo”. Ele e alguns amigos se reúnem para eleger a melhor sensação do mundo entre as publicáveis, mesmo numa revista de vanguarda como a ESTILO OFF. E concluem, não sem dificuldade, ser o caderno novo. Amo essa metáfora. Porque a despeito de hoje em dia as papelarias nos quererem “enfiar” fichários caríssimos em cujas capas se estampam um ícone qualquer da efemeridade – em três ou quatro meses a moçada inventa um jeito de fazer a família comprar uma nova capa – o velho caderno-novo é um mundo vasto.

Lembro o meu caderno de pauta com as folhas juntadas com dois grampos que não permitiam tirar meia folha da primeira metade sem comprometer a correspondente da direita. Com suas páginas em branco ainda por serem escritas; aquele mundo de folhas-dias que a gente imagina que terá e, o que virá, folheando depressa com o polegar de uma máquina de contar dinheiro. Tudo branquinho: um convite pra tantas coisas... o indicador molhado no mataborrão da boca a passar uma a uma as páginas virgens; o roçar com a mão espalmada cada centímetro de celulose; o cheiro inebriante de novidade... uma sensação de possibilidades incontáveis.

Diante do caderno novo – um ano que não começou –, que encapávamos no último gosto e com plástico também, jurávamos solenemente mantê-lo limpo e em dia. Prometíamos ser cuidadosos; cidadãos respeitáveis; pessoas melhores... essas coisas que se dizem em juramentos. Entretanto, vinham a roda viva das horas, o balanço dos dias e a rotina das semanas e, então, voltávamos a ser os mesmos e a vivermos “Como os nossos pais”. Mas aí o caderno já não era mais novo... – um ano que não acabou e nós já torcendo pro apito final.

Quando me permito ser menos egoísta, vislumbro os interesses sociais. E me preocupo com as pessoas e com as demandas de todos nós. Por isso acho que 2008 não se acabou graças a pelo menos três eventos que invadiram 2009:

  • A imprensa diz que o mundo saúda a eleição e a posse de Obama como se fosse o salvador do planeta e o apaziguador dos povos. Muitos concordam com isso pelo fato de o presidente ser jovem e negro. É preciso saber, contudo, o quanto ele se sente negro; não nos esquecer de que é norte-americano. E, quanto ao fato de ser jovem, nós itaperunenses somos gatos escaldados.
  • O senado insiste em aumentar o número de vereadores pelo Brasil afora. Minha nossa! Pensei que a democracia caminhasse para o fim do Legislativo com o povo interagindo no ciberespaço, tomando decisões online nos referendos e plebiscitos na web e no celular, mas não! Aumentam o número de vereadores para afastar-nos cada vez mais das "decisões". Será que os senadores não sabem que vereador só cria firula para levar ainda mais vantagem do prefeito que precisa ter maioria – ainda que comprada – para administrar? Aliás, por falar em senado... Deixa pra lá!
  • A enchente de dezembro deve ser um fantasma a cobrar planejamento do novo governo municipal. É mister reconhecer que a natureza foi a grande atriz do cataclismo. De toda sorte, não podemos esquecer de que algumas ações públicas como o desassoreamento do Rio Muriaé, um projeto de drenagem urbana, uma usina de reciclagem do lixo, o reflorestamento das encostas, o arco viário da BR 356 e outras teriam minimizado esta catástrofe e acabado com tantas menores que nos azucrinam o ano inteiro.

Sinceramente, 2008 já vai tarde, se deixarmos. O nosso prefeito Claudão, a esta altura, já tem encapado o seu caderno novo, com juramento solene e tudo mais. Já escrevera algumas linhas caprichadas: o socorro às vítimas mais sacrificadas pelas enchentes, a coleta de lixo, o calçamento da entrada de Retiro do Muriaé, o carnaval... Por falar nisso, dá pra fazer muita coisa agora que Momo já devolveu a chave da cidade: mudar o clima, reescrever um plano urbanístico, reconstruir a cidade... e até fazer 2009 começar. A gente espera.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

http://professorzeluiz.blogspot.com/