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sábado, 5 de setembro de 2009

Pacata gente brasileira

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil
Evaristo da Veiga

Com quase oito mil palavras, Pero Vaz de Caminha faz uma narrativa-descritiva a D. Manuel I mostrando-lhe o Brasil de 1500. No último parágrafo, pede um favor ao rei: “...peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro...” O talzinho fora condenado ao exílio por ter aprontado coisas do arco da velha em Portugal. A Carta de Achamento é chamada por muitos estudiosos de Certidão de Nascimento (e de Batismo, por certo) do Brasil. Parece-me que o escrivão imprimira indelével marca no caráter da nova nação.

Creio que a expressão “jeitinho brasileiro” pode ter começado aí; o adjetivo é só a qualificação do local ou porque praticado na terra brasilis. Mas, façamos justiça, não há indícios de ter sido uma invenção nacional. É que, como o próprio Caminha intuíra sobre a nova terra “querendo aproveitar, dar-se-á nela tudo” inclusive o fisiologismo que esfervilha aqui, sobretudo no lamaçal de Brasília, e multiplica-se “como larvas no esterco”.

Neste mês, comemoramos o 187º aniversário da Independência. Que naquela época representava apenas um jeitinho para que Dom João VI pudesse voltar para Portugal e manter o poder (Dom Pedro I) sobre o Brasil. Já o jeito mesmo foi o caso da maioridade de Dom Pedro II - coroado aos 15 anos para que o pai pudesse ser rei em Portugal. Mas antes houve um jeitão dado pela constituição de 1824 que criou um Legislativo Bicameral (Câmara e Senado) a fim de ajeitar uma cadeira vitalícia aos coronéis (como o presidente do Conselho de Ética, por exemplo) que não tinham voto, mas dominavam a economia e a política nas províncias (estados). Fica instituído o Senado.

Ao longo de nossa história, o Senado foi descrito como uma casa onde os anciãos da nação criavam e revisavam as leis para melhorar a vida da gente. Fiquei fuçando, neste fim de semana, os princípios de criação e organização da casa. Descobri que alguns estudiosos do direito constitucional apregoam que a organização do Poder Legislativo não é cláusula pétrea (imutável). Portanto, podemos sim abrir o debate sobre a conveniência do sistema bicameral - pra ficar barato! -, pois a existência de um legislativo corruptível e corruptor como o nosso - Valha-nos, Deus! - é pra se discutir. Mas, sejamos um pouco mais pacientes e, com jeitinho, debatamos apenas a “Casa dos Horrores”, como foi chamado o senado brasileiro pela revista inglesa “The Economist”. Gente, são 81 senadores que precisam de 10 mil servidores para os paparicar! É um pouco demais, não é?! Nem há espaço aqui pra falar dos últimos escândalos de suas excelências, pois a lista estará sempre desatualizada. Aquilo é mesmo uma casa de criar e manter escândalos de mal uso do dinheiro arrecadado com os impostos que eu e você pagamos. Desgraçadamente, o calor destes trópicos favorece a gestação e proliferação não apenas da dengue e da gripe suína; mas, do fisiologismo, do clientelismo, do corporativismo, enfim, da corrupção generalizada tão visível no senado brasileiro, que se assemelha mais a uma casa de tolerância.

Neste 7 de setembro, não posso dar vivas à Independência. Continuamos colonos desde que nascemos (!) em 1500. A luta pela independência continua hoje por um Brasil livre da corrupção de seus agentes públicos; de mansões milionárias escondidas do Fisco; de estadias de apaniguados pagas com dinheiro público; das passagens aéreas distribuídas na base de favores eleitorais; das verbas indenizatórias que são um segundo salário; de horas-extras pagas no recesso; das benesses todas que têm os mandatários desse país, que são um acinte ao povo trabalhador... Ou locupletemo-nos todos com os favores da má política e, como Caminha, beijemos “as mãos de Vossa Alteza”.


Publicada na Revista CAE de setembro