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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL


Quando eu era menino pequeno lá em Retiro do Muriaé, quase ninguém pronunciava alguns dos nomes de Satã. Além do medo que nos fora impresso pela cultura cristã de atrair o Capeta, os designativos de Satanás eram todos considerados palavrões que só os meninos mal educados ousavam xingar. As pessoas mais velhas, ao precisarem falar o nome do Bicho Ruim, usavam o qualificativo “inimigo”. Então, diziam que o Inimigo tentou fulano de tal, por isso ele matara sicrano ou beltrano, ou roubara alguma coisa, ou teria tido um comportamento inconveniente qualquer. E depois, esconjuravam-se e persignavam-se como para se livrarem de ter atraído o Tinhoso ao pensarem nele ou ao proferirem seu apelido. Naquele tempo, o povo atribuía a qualquer atitude humana fora dos padrões sociais a uma tentação do Príncipe das Trevas. Nos casos mais graves, de repetidas safadezas, dizia-se que o indivíduo estava endemoninhado, possuído por Lúcifer; só um exorcista poderia dar jeito. Era a crença romântica de que toda criatura nasce boa, que o batismo a torna ainda melhor e a conversão, definitivamente, a faz santa. Uma forma de eximir a todos da responsabilidade por seus atos, atribuindo-os a alguma inexorável força alienígena.

Mesmo hoje, quando a sociedade avança na compreensão da natureza humana e da organização social, há espaço para reduzir tudo à eterna disputa entre Deus e o Diabo, entre o bem e o mal. O corpo social brasileiro é majoritariamente mítico por força de uma colonização de base cristã. Aliás, essa mistura mística e de raças, que faz a originalidade do nosso povo, leva-nos a uma percepção da realidade quase sempre opaca. É como diria Roberto Campos – por quem nunca tive simpatia -, o brasileiro é a mistura da cultura do privilégio, com a da magia, com a da indolência. Eu diria que é por isso que nos impingimos e aceitamos axiomas como “o brasileiro tem memória curta”, “daqui a pouco já ninguém se lembra disto” e outros.

A manter a crença de que o país é o centro da disputa entre Deus e o Pai da Mentira, o campeonato já está praticamente perdido pela agremiação celeste. Ainda mais depois desses últimos jogos em que o senado brasileiro vem vencendo todas por W.O. Deus do céu! Claro que sei não haver nenhum santo lá no Congresso Nacional - viu o Pedro Simon tremendo sob as ameaças de Collor? Afinal, terem um Conselho de Ética e Decoro Parlamentar - já há projeto para acabar com o CEDP, não se precisa mais - é só outra das enganações do Tinhoso. São as más influências do Demônio que têm feito o presidente do senado, que também é imortal, negar o inegável, certamente. Ele é um bicho atentado. Tenho uma colega de trabalho que, diante da tragicomédia dos ditos e desditos, acha que o Sarney está ficando doido; esta é uma outra forma de dizer que a culpa não é dele; também, com uma biografia daquelas...

Mas, chegue o ouvido aqui, mais perto: o que está acontecendo com o atendimento dos postos de saúde em Itaperuna? Parece que erram todos os diagnósticos. Quem autorizou o assassinato de uma árvore de 26 anos que dava uma bela sombra na praça central de Itajara? As saúvas disseram que a danada jogava muita folha no chão; que lhes davam bastante trabalho pra varrer. Hum! quem tá vencendo o jogo por aqui?!

Lembro-me do Macunaíma, de Mário de Andrade, trepado num caixote dizendo que os males do Brasil - e de Itaperuna, portanto! - é “pouca saúde e muita saúva". Mas, a culpa... deve ser do Diabo, é claro!

sábado, 5 de setembro de 2009

Pacata gente brasileira

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil
Evaristo da Veiga

Com quase oito mil palavras, Pero Vaz de Caminha faz uma narrativa-descritiva a D. Manuel I mostrando-lhe o Brasil de 1500. No último parágrafo, pede um favor ao rei: “...peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro...” O talzinho fora condenado ao exílio por ter aprontado coisas do arco da velha em Portugal. A Carta de Achamento é chamada por muitos estudiosos de Certidão de Nascimento (e de Batismo, por certo) do Brasil. Parece-me que o escrivão imprimira indelével marca no caráter da nova nação.

Creio que a expressão “jeitinho brasileiro” pode ter começado aí; o adjetivo é só a qualificação do local ou porque praticado na terra brasilis. Mas, façamos justiça, não há indícios de ter sido uma invenção nacional. É que, como o próprio Caminha intuíra sobre a nova terra “querendo aproveitar, dar-se-á nela tudo” inclusive o fisiologismo que esfervilha aqui, sobretudo no lamaçal de Brasília, e multiplica-se “como larvas no esterco”.

Neste mês, comemoramos o 187º aniversário da Independência. Que naquela época representava apenas um jeitinho para que Dom João VI pudesse voltar para Portugal e manter o poder (Dom Pedro I) sobre o Brasil. Já o jeito mesmo foi o caso da maioridade de Dom Pedro II - coroado aos 15 anos para que o pai pudesse ser rei em Portugal. Mas antes houve um jeitão dado pela constituição de 1824 que criou um Legislativo Bicameral (Câmara e Senado) a fim de ajeitar uma cadeira vitalícia aos coronéis (como o presidente do Conselho de Ética, por exemplo) que não tinham voto, mas dominavam a economia e a política nas províncias (estados). Fica instituído o Senado.

Ao longo de nossa história, o Senado foi descrito como uma casa onde os anciãos da nação criavam e revisavam as leis para melhorar a vida da gente. Fiquei fuçando, neste fim de semana, os princípios de criação e organização da casa. Descobri que alguns estudiosos do direito constitucional apregoam que a organização do Poder Legislativo não é cláusula pétrea (imutável). Portanto, podemos sim abrir o debate sobre a conveniência do sistema bicameral - pra ficar barato! -, pois a existência de um legislativo corruptível e corruptor como o nosso - Valha-nos, Deus! - é pra se discutir. Mas, sejamos um pouco mais pacientes e, com jeitinho, debatamos apenas a “Casa dos Horrores”, como foi chamado o senado brasileiro pela revista inglesa “The Economist”. Gente, são 81 senadores que precisam de 10 mil servidores para os paparicar! É um pouco demais, não é?! Nem há espaço aqui pra falar dos últimos escândalos de suas excelências, pois a lista estará sempre desatualizada. Aquilo é mesmo uma casa de criar e manter escândalos de mal uso do dinheiro arrecadado com os impostos que eu e você pagamos. Desgraçadamente, o calor destes trópicos favorece a gestação e proliferação não apenas da dengue e da gripe suína; mas, do fisiologismo, do clientelismo, do corporativismo, enfim, da corrupção generalizada tão visível no senado brasileiro, que se assemelha mais a uma casa de tolerância.

Neste 7 de setembro, não posso dar vivas à Independência. Continuamos colonos desde que nascemos (!) em 1500. A luta pela independência continua hoje por um Brasil livre da corrupção de seus agentes públicos; de mansões milionárias escondidas do Fisco; de estadias de apaniguados pagas com dinheiro público; das passagens aéreas distribuídas na base de favores eleitorais; das verbas indenizatórias que são um segundo salário; de horas-extras pagas no recesso; das benesses todas que têm os mandatários desse país, que são um acinte ao povo trabalhador... Ou locupletemo-nos todos com os favores da má política e, como Caminha, beijemos “as mãos de Vossa Alteza”.


Publicada na Revista CAE de setembro

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

MÃOS À PALMATÓRIA

As pessoas começam a envelhecer quando dizem “no meu tempo não era assim...”, quando eu era moço...”, “antigamente é que...”. Dizem isso, invariavelmente, por uma dificuldade de compreender e aceitar a realidade. Não estamos falando aqui de idade cronológica; mas mental, comportamental. Ao contrário dos seus contemporâneos, minha mãe sempre diz que tempo bom é o de hoje. E desfia um rosário de dificuldades que viveu na sua juventude em elogio às novas tecnologias que exemplifica com o chuveiro elétrico, o ferro de passar roupas a vapor, o fogão à gás, o liquidificador etc. Ora, até mesmo para este quarentão, é difícil entender a vida sem essas facilidades tecnológicas nem tão novas assim. Acho que herdei dela esse sentimento evolucionista. Não posso admitir que a humanidade ande em algum momento para trás. A história ajuda a compreender o presente e até orienta o futuro. Entretanto, ela não é uma alternativa de vida.

Tenho ouvido muitos discursos surrealistas, sobretudo dentro da Escola, apregoando a volta de certos valores do passado - mais ou menos na base do “vigiar e punir” - que resultassem em joelhos nos caroços de milho, mão à palmatória e que tal. Um saudosismo meio mórbido e fantasioso de que seja possível viver esses tempos tão dinâmicos e inclusivos de hoje na base dos vinte quilômetros por hora, velocidade que os automóveis alcançavam em mil e novecentos e antigamente. E, o que é pior, dentro de ternos de casimira e vestidos plissados.

Neste dia 11 de agosto também se comemora o dia do estudante. Apesar de a data ter sido criada numa referência à instalação de dois cursos de Direito, sempre penso no dia em relação às crianças e aos jovens. Isto porque na minha cabeça a infância e a juventude são os melhores e mais proveitosos momentos para se estudar sistematicamente. Além disso, gosto de ver a vitória da infância e da juventude na luta secular pelo reconhecimento de sua cidadania e de que este período da vida é produtivo, pois estudar é também uma forma de trabalho, ainda não remunerado.

O cientista inglês David Bainbridge, um evolucionista, tem afirmado ser entre os 11 e 20 anos que muitas das habilidades humanas são desenvolvidas. E vai mais adiante: “Sem a adolescência, os seres humanos não passariam de uns bobos incoerentes dotados de um cérebro enorme.”. Muita gente inteligente já sabia disso, mas reluta em aceitar. Já a minha aversão é pela situação que os números do Laboratório de Análise da Violência da Uerj revelaram esses dias. Segundo os dados, “cerca de 33.504 adolescentes brasileiros - de 12 a 18 anos - serão assassinados em um período de 7 anos, que vai de 2006 a 2013”, se nada for feito pelos governos e pela sociedade.

Se continuarmos perdendo nessa proporção os nossos jovens, de um lado pela violência homicida e de outro por uma Escola cujos professores querem uma clientela adestrada e disciplinada que não lhes dê muito trabalho para escolarizar, a falência é certa como o dia amanhecerá, queiramos ou não.

Por isso, desejo prestar esta homenagem a todo estudante desse país. Fazer hoje um mea culpa, por que não?! Somos nós que existimos para você e não o contrário. Desculpe-me e aos meus colegas professores:

Por querê-lo igual aos outros;

Por desdenhar dos seus direitos;

Por debochar do seu desconhecimento;

Por ter feito a pegadinha na avaliação;

Por “valorizar” os seus erros;

Por menosprezar seus acertos;

Por não ter preparado a aula;

Por não entregar os resultados em tempo;

Por compará-lo;

Por não reconhecer o seu time;

Por tentar convencê-lo das minhas verdades;

Por buscar cooptá-lo;

Por ter faltado à aula;

Por ter usado você para uma desculpa;

Por tê-lo chamado de preguiçoso;

Por ter sido deliberadamente injusto com você;

Pela impaciência;

Pela intolerância;

Pela covardia;

Pelo mau juízo;

E por tudo que fez você sofrer.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

Crônica publicada na Revista Canal da Cultura - CAE de agosto/2009

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Taí a Mutação da Evolução


Só acredito em sorte de quem trabalha, pois o acaso é apenas uma impertinência filosófica. O resultado da XIII Agrogincana do CIE é a constatação da tese de que o planejamento estratégico, aliado à força da execução, é decisivo para os resultados. Além do mais, esta gincana nos trouxe um novo olhar sobre a questão da competição.

Gosto de pensar a vida como um jogo dramático, um roteiro teatral onde cada pessoa precisa desempenhar sua função, sob pena de pagar um preço muitas vezes alto pela incúria. Se alguém, pelas mais diversas razões não joga bem ou não cumpre o seu papel, o jogo não se acaba, mas o roteiro será refeito quantas vezes forem necessárias para a manutenção do contrato, isto é, ninguém teria, sozinho, força para finalizar prematuramente os projetos de um grupo. O show não pode parar.

Antes e durante esta gincana, as teses de Maquiavel me perseguiram desafiando minha inteligência e meu entendimento. Os conceitos de virtù e fortuna importunaram o meu sono por dias. Desde o sorteio das equipes da gincana me deparei com um pensamento novo: não fiquei desejando estar numa ou noutra equipe, nem que estivessem comigo estes ou aqueles professores e alunos. Quando o meu nome foi sorteado para a equipe 2, pensei imediatamente: é esta! é nesta equipe que estou e pronto. É aqui que vou trabalhar! Naquele momento senti a virtú, a energia dirigida para um objetivo. Porque não acredito em sorte, ou fortuna; entendi que a equipe 1, a 2 ou a 3 são iguais em riqueza de oportunidade, em desafios, em peleja. Mas o senso de oportunidade, o planejamento estratégico, a determinação é que podem garantir o êxito. Aliás, o sucesso nem sempre está no mais alto do pódio. Explico: quando um aluno (isto vale para o professor, para o gestor) não acerta uma resposta ou não evita um gol decisivo, mas fez o melhor de si, então este é o resultado. À superação dos nossos próprios limites é que chamamos sucesso invariavelmente definitivo e irreversível; aos limites dos outros é a fama, sempre passageira e fugaz. Estou falando isso para citar um único aluno de toda essa festa que foi a nossa gincana e, ao proclamá-lo uma espécie de exemplo da nossa maturação, homenageio a todos e a todas que deram o melhor de si. Trata-se do Edson Barbosa. Quem já o conhece há 2 ou 3 anos sabe o que significou para ele ter representado sua equipe numa tarefa em que se tinha de responder publicamente perguntas sobre a revolução cubana. Mas quem é da Equipe 2 testemunhou o Edson aceitando o desafio enjeitado e/ou abandonado no meio do caminho por alunos mais famosos. No quadro de professores e gestores, o CIE de Itaperuna conta com várias guerreiras. Aqui quero destacar a professora Fátima Goulart pelo sangue, pelo suor e pelas lágrimas de apreensão e de alegria que derramou antes, durante e depois da grande festa.

Definitivamente não há como, a cada ano, evitar que a nossa gincana se transforme numa grande superprodução de trabalho, de criatividade, de despojamento e de resultado. Há coisas que são mesmo inexoráveis... e aí, inclua-se a questão do financiamento das equipes, um assunto palpitante que teremos de discutir para fazer avançar a organização da agrogincana e dar equidade à disputa.

Acredito que esta gincana foi a do PLANEJAMENTO. Não estou falando da tentativa de adivinhar o que seria pedido, por exemplo, nas tarefas relâmpago. Refiro-me a se preparar bem, a criar todas as condições para realizá-las e a uma postura que, desde o início, os professores parece terem combinado: “A gincana é dos alunos, portanto são eles que a realizam.” Planejar não é estabelecer um roteiro imutável a ser seguido a ferro e fogo, mas engendrar diretrizes que permitam incitar a criatividade, aceitar o improviso e, claro, delegar responsabilidade.

Antecipar resultados é sempre uma temeridade. Mas, se a equipe “Evolução” não foi o maior sucesso desta agrogincana, então de nada terá valido a definição da missão da equipe; a análise da situação; a formulação dos objetivos; a criação das estratégias; a implementação do planejamento; o feedback e o controle. Entretanto, a esta hora, tudo isso já será história que contaremos, a partir de hoje, pelos próximos anos.

Esta XIII Agrogincana não foi apenas a melhor porque está mais próxima de nós. Foi muito melhor, pois estabeleceu um marco na construção da comunidade escolar: aprimoramos o sentimento de solidariedade exercitando o despojamento (não estamos falando de compaixão apenas, mas de justiça); vencemos a competição contra a disputa mesquinha (Não era um troféu de primeiro lugar o objetivo que moveu cada equipe) e demos um definitivo passo rumo à maturidade social (o respeito, a fraternidade, o cuidado para além das alfândegas de cada grupo). Todas as equipes são vencedoras neste evento, porque mesmo não tendo “ganhado” esta ou aquela tarefa, elas se superaram a si mesmas dando o melhor de si. E se fizemos mesmo isso, a Educação, mais uma vez, cumpriu o seu papel, a sua missão: fazer evoluir.


Texto de Avaliação da XIII Agrogincana do Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna escrito antes da proclamação do resultado da gincana.

Professor Zeluiz

Equipe 2 - EVOLUÇÃO