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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

PEDRA 90

É muito louvável que a humanidade tenha chegado ao ponto em que dá a jovens e idosos a importância que têm e merecem na arena da convivência social. Numa sociedade utilitarista como a nossa, dar crédito às duas pontas “improdutivas”, aprimorando o reconhecimento e o respeito por esses status, é muita evolução.
Dia desses, Mateus – o neto mais novo (5 anos) – abordou a avó perguntando: _O vovô tá quase morrendo, né? A avó retrucou querendo conhecer os quesitos da avaliação dele. _Por que você acha isso?

Mateus é o mais novo menino da ninhada
_É que ele já está careca e com a barba branquinha.

Quando Elâine me contou isso, não posso negar, senti um friozinho na espinha. E tendo espelho em casa, não me deixo desatualizar a Certidão de Nascimento. Mas talvez tenha sido a primeira vez que me vi confrontado por uma lógica de consequência tão contundente. Senti-me como naquele vídeo “envelhecendo em um minuto”, que rola pelas redes. É que minha geração talvez tenha sido a última a ser preparada para a gerontocracia. Quando entrávamos na escola, já sabíamos que as pessoas mais velhas tinham mais sabedoria, que eram elas as guardiãs e transmissoras das tradições, que certas competências somente elas possuíam. Na nossa infância, os idosos eram venerados como repositórios de experiência. Recorria-se a seus conselhos, e eles tinham a palavra final nas decisões. Isso fazia uma enorme diferença no convívio social, com reflexo específico dentro das salas de aula. Quanta diferença de hoje em dia!
Agora parece haver um esgarçamento da vida. Ela começa mais cedo e termina mais tarde, ou pelo menos é o propósito implícito nas manobras de mudanças. Não tenho obsessão em ver os poderosos tentáculos do Capital sobre tudo, nem alimento mania de perseguição, mas vejam a reforma da previdência que se discute no Congresso Nacional! O fulcro é fazer que trabalhemos por mais anos e nos aposentemos mais perto de morrer. Quer-se esticar a vida. A vida produtiva, diga-se. Claro que isso não se faz somente exigindo mais tempo de contribuição à previdência e mais anos de trabalho. Achou-se, com a reforma trabalhista, um intervalo intrajornada menor para as refeições. Nunca pensei que aquela cena de “Tempos Modernos”, na qual o personagem de Chaplin é acorrentado a uma máquina experimental de alimentação, pudesse sair de uma ficção dos anos de 1936 para se tornar realidade no Brasil do século XXI. Tempos difíceis.
Por outro lado, precisamos reconhecer que avanços na qualidade de vida e no bem-estar vêm circunscrevendo a vida na terceira idade. Uma quebra bastante evidente de estereótipos fornece a leitura de que, como constatou Arnaldo Antunes, “a coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”. Da velhinha sentada na cadeira de balanço tecendo crochê à jovem senhora clicando no celular dentro do ônibus circular, nossa envelhescência tornou-se consciente, militante e organizada. Tanto que, em 1º de outubro, o Estatuto do Idoso irá completar 13 anos. Foi debatido por organizações sociais e pelo Congresso por 6 anos. Ao sancioná-lo, o presidente Lula lembrou que se tratava de um compromisso civilizatório do povo brasileiro. Muita gente disse que a constituição já estabelecera proteção aos idosos e que a Lei 10.741/03 “choveu no molhado”. Sinceramente, quando é necessário continuar legislando sobre direitos já consignados no marco superior é porque esses não estão sendo cumpridos. O Estatuto trouxe o tema do idoso para a agenda nacional. Institucionalizou a prioridade ao idoso que o senso comum e a boa educação consagraram e consignou uma série de garantias tanto por parte do Estado, quanto das famílias. E mais. Alterado recentemente, reconheceu como categoria preferencial de prioridade as pessoas com mais de 80 anos. Refinamos a lei para torná-la ainda mais justa.
Meu netinho tem razão em observar que a barba vai ficando branquinha e os cabelos vão caindo para cabeça aparecer. Mas se engana redondamente ao imaginar que estamos “quase morrendo”. Estamos é ganhando fôlego.
Neste dia 22 de julho, a minha mãe completou 93 anos. Está numa cadeira de rodas, é diabética, e luta todos os dias para retardar o avanço do Alzheimer. Ela sempre foi moderna em seus pensamentos e atitudes. Não pensa em morrer; ao contrário. Quando perguntamos como ela está, responde, com toda razão: _Tô pedra 90! 

Publicado na OFF-agosto/2017

4 comentários:

Moacir disse...

Amigo, você é certeiro !!!

Professor Zeluiz disse...

Deve ser influência dos amigos generosos!

Jaraney Camacho disse...

Excelente ! Quero registrar q em minha infância, até adolescência mesmo e até pouco tempo,tinha ate medonde morrer e nao ser avó, achava que avós eram bem velhinhos e hoje me vejo uma avó "prá frente" e pedra 50! Parabéns pelo texto!

Professor Zeluiz disse...

Pois é, Jará, diferentemente da sua experiência, a nossa se adiantou, achamos, um pouco no tempo. Os primeiros netos nem sabemos se se poderia dizer deles, como Rachel de Queiroz, que foram "amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis". Mas esses, que nos chegaram depois dos cinquenta aí sim, temos neles a mesma sensação que você experimenta agora: quase um êxtase. Um grande abraço.