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domingo, 4 de junho de 2017

A CULPA É DE QUEM?

Quando eu era menino pequeno lá em Retiro do Muriaé, quase ninguém pronunciava alguns dos nomes de SATANÁS. Além do medo que nos fora impingido pela cultura judaico-cristã de atrair o CAPETA, os designativos de SATÃ eram todos considerados palavrões que só meninos mal-educados, ou gente perdida, ousavam xingar. As pessoas mais velhas, ao precisarem falar o nome do BICHO RUIM, usavam o qualificativo “inimigo”. Então, diziam que o INIMIGO tentou fulano de tal, por isso ele matara sicrano ou beltrano, ou roubara alguma coisa, ou teria tido um comportamento inconveniente qualquer. E depois, esconjuravam-se e persignavam-se como para se livrarem de ter atraído o TINHOSO ao pensarem nele ou ao proferirem um de seus apelidos.
O povo atribuía à tentação do PRÍNCIPE DAS TREVAS toda atitude fora dos padrões sociais. Padrões ditados e escritos, e vigiados, e cuidados para que nunca evoluíssem. Nos casos mais graves, de repetidas safadezas, dizia-se que o indivíduo estava endemoninhado, possuído por LÚCIFER – o anjo decaído –; só um exorcista poderia dar jeito a isso. Fosse hoje, estaríamos num mato sem cachorro porque exorcista ficou igual a trocador de ônibus: a gente não encontra um.
Mas busquemos compreender em que patamar se davam essas relações de lugar dos sujeitos na pirâmide. Tratava-se de uma sociedade majoritariamente “convertida”, convencida por herança. Era a crença romântica de que toda criatura nasce uma tabula rasa, que o batismo a torna melhor e a conversão, definitivamente, a faz santa. Uma forma de eximir a todos da responsabilidade por seus próprios atos, tantos os “bons” quanto os “maus”, atribuindo-os a alguma inexorável força exógena, alienígena, doutro mundo.
Em alguma monta eu me sentia parte de uma legião estrangeira. É que nasci canhoto! Escrevo com a mão esquerda. Diziam que eu era SINISTRO. Uma irmã mais velha – Rita de Cássia – foi perseguida na escola por não ser destra. A professora queria amarrar sua mão esquerda pra que “endireitasse”. Coitada! A professora, claro, não sabia que o lápis seria substituído pelo teclado, em razão de que nada é definitivo, nem suas crenças. Eu tive “problema de comportamento” aos 8 anos de idade porque queria debater o conceito, vigente à época, de substantivo concreto e abstrato com base nos exemplos parcos e muito rasteiros que a minha professora dava. Isso, contudo, é pra um outro texto.
Mesmo hoje, quando a ciência avança na compreensão da natureza humana e da organização social, insistem em espaço para reduzir tudo à eterna disputa entre o DEUS e o CÃO, entre o BEM e o MAL. Parece aquela angustiante dicotomia ceciliana de ter de viver “escolhendo o dia inteiro” entre isto OU aquilo.
Em países como o Brasil, sob colonização de base cristã, o comportamento social é fortemente mítico. Entretanto, tenho observado a expulsão do CAPETA do imaginário das pessoas. Encontra-se um montão de gente que não acredita na existência dele. O Talzinho já não é visto com a corriqueira frequência com que diziam que ele aparecia e se apossava de pessoas antes do celular com câmera de vídeo. Dizem até as más línguas que tem batido ponto em uma ou outra igreja de orientação neopentecostal, donde sempre acaba escorraçado e expulso da montaria. Tem mesmo razão o Zeca Baleiro ao apregoar que o CRAMUNHÃO é o cara mais underground que existe. Tenho notícias de que o trabalho do COISA RUIM está em processo de terceirização. Começo a considerar esta realidade, pois temos visto uma legião de simulacros em substituição a BELZEBU. Eles habitam sobretudo os espaços de poder terreno como as casas do Congresso Nacional, as altas Coortes da Justiça e, ultimamente os Palácios do Planalto, do Alvorada, do Jaburu (eles ficam mudando de lugar, conforme fazem também os habitués) e seus similares estaduais e municipais.
Roberto Campos, por quem nunca nutri simpatia, dizia que o brasileiro é a mistura da cultura do privilégio, com a da magia, com a da indolência. Vou levar em conta a assertiva no esforço de colaborar com a compreensão dessa originalidade nacional que leva a grossa maioria de nós a ter uma percepção opaca da realidade. Opaca porque muitos não estão entendendo que nosso país não é o centro da disputa entre o DEUS e o PAI DA MENTIRA (apelido preferido do meu neto Mateus). Assim fosse, o campeonato já estaria praticamente perdido pela agremiação celeste.

Chegue o ouvido aqui, mais perto: o que está acontecendo com as administrações municipais novinhas em folha? Qual é o problema, doido? Ah, deve ser culpa do DIABO.

Publicado na Estilo OFF - junho/2017

Um comentário:

Celso Correa de Freitas disse...

É...Faz sentido. Também se dizia: O Diabo quando não vem, manda o secretário!