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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

É preciso abaixar o fogo

As crianças de minha geração e classe social executavam trabalhos domésticos como, por exemplo, “fazer a cama”. Isto significava: dobrar o cobertor; esticar o lençol e forrar a cama com a colcha; guardar o travesseiro e o pijama antes de lavar o rosto; escovar os dentes e sentar-se à mesa para o café da manhã.
No correr do dia, antes ou depois de ir à escola, havia outras tarefas. Aliás, minha mãe dizia: _trabalho de menino é pouco, mas quem dispensa é louco. Lá em casa, cada um de nós, por seu turno, vigiara o leite ferver. Algumas vezes no grande fogão a lenha; outras, amiúde, no fogão a gás. Existia uma panela alta onde o leite era posto a ferver e tínhamos de mexê-lo com uma escumadeira para que não criasse raspa no fundo. Inevitavelmente, em algum momento, o leite levantava fervura e prontamente girávamos o botão do queimador para que não entornasse – o que representaria sujeira e prejuízo. Era ainda o tempo da vida sólida, conforme ensina Zygmunt Bauman.
Hoje uma enorme quantidade de sujeira é produzida a fim de que possamos tomar um copo de leite pasteurizado, e batizado com uns não-sei-quantos-aditivos. Sem contar os químicos na alimentação da vaca que já não vive só de comer capim. De todo modo, a sujeira não forma mais binômio com prejuízo. Tornamo-nos SUJISMUNDOS para que o serviço de coleta de lixo chegasse a ser a mais notável indústria movida pelo consumo e lucro. Não há crise na indústria da remoção do lixo. Desde os contratos sob suspeição até a criminosa condição insalubre de trabalho diuturno dos garis, passando pelas subcontratações e termos aditivos duvidosos, a coleta e destinação do lixo é o antro onde germina a corrupção com desvio dos recursos públicos pelo incesto com a iniciativa livre. Nesse caso, melhor é o adjetivo privada, que serve também para qualificar este tempo da “Vida Líquida”.
O ponto central é a reflexão sobre a produção do lixo. Não é bem o “onde vamos colocar tanto lixo?”; mas se podemos adotar uma atitude para não produzi-lo com essa voracidade crescente. Porque estamos vendo a “fervura levantar” faz tempo.
O mercado consegue, ano a ano encurtar a distância entre a loja e a lixeira fazendo com que esse processo ocorra o mais velozmente possível. Estamos aceitando, sem arrependimentos, a curta duração dos bens de consumo. Em conformidade com os ditames do mercado, temos prontidão em nos livrar das coisas que duram mais do que 1 ou 2 anos. Isso vale para relacionamento amoroso, aparelho de celular, perfil no facebook, ritmo musical ou projeto de formação acadêmica. Chegamos à sociedade do consumo sem mártires ou heróis. Vige o tempo breve da celebridade – palavra de origem latina, mas que não se confunde com cerebrum.
No início do século, a Rita Lee cunhou uma letra líquida, gastronômica, para consumo instantâneo. O refrão diz assim: Um dia depois / Não me vire as costas / Salvemos nós dois / Tudo vira bosta.... As fezes, como se sabe, são o lixo mais original desde sempre. É o mais reciclável, pois de 80% a 90% é água. Diferentemente de tudo o que metaforiza explicitamente, como o “programa do partido, o herói, o dedo duro, a apólice de seguro, o passado e o futuro, a prostituta e o deputado, a virtude e o pecado”, a merda é uma imposição fisiológica, natural e legítima.
Toda a elaboração dos outros lixos poderia ser minimizada não houvesse o incentivo ao consumo compulsivo, que a indústria do descartável pôs na linha de produção planetária.
Tudo isso ferve num fogão à lenha. E não tem botão de DESLIGA. Ao contrário. Quando a elite toma de volta as rédeas da nação, e impõe um governo cuja marca paira ameaçadora como o império da “ordem” e do “progresso”, parece que tudo vai passar, menos as dores e a corrupção. A “ordem” produz lixo humano, que, nessa lógica, são todos os que estão fora do mercado, e não conseguem consumir. O “progresso” do capital, quer pela exacerbação produtiva, quer pelo rentismo, não pode ser alcançado sem produção de lixo, inclusive industrial. O “progresso” depende de “coletores de lixo” cujas vidas físicas são apenas mantidas, pois alguém tem que catar e dar destinação ao refugo.
Haverá quem diga que as crianças de antigamente eram exploradas por seus pais, obrigadas a produzir muitos trabalhos como a varrição da casa e quintal, torração dos grãos de café, alimentação dos animais de criação etc. Eu vivi aquele tempo sem me sentir abusado ou alienado a respeito da produtividade que a família esperava de mim. Mas, o processo civilizatório “resgatou”, como numa nova abolição, os menores do trabalho. Tirou as crianças da produção para inseri-las na roda do consumo. E, desde cedo, os jovens são convencidos a não se apegarem muito às coisas. A respeitarem a transitoriedade necessária da existência delas. A admitirem que o mercado não existe sem o nosso profundo desapego. A obedecerem aos impulsos de consumo.

Publicado na Estilo OFF - setembro/2016

3 comentários:

katia santarem disse...

Excelente texto ,seu Zé. Eu comungo das ideias ou ideia do consumismo e penso aonde vamos os parar.Tb ajudei a tratar dos porcos ,prender os bezerros à tardinha ...e a odiável tarefa de encerar a casa. Rs.Tinha hora para o estudo e oara brincar com os colegas.Geralmente mata_mata na rua e poucos carros. Hj vejo crianças brigando pq querem o celular dos pais...mas e o lixo não é?
Posso usar com meus professores? Grata.

Professor Zeluiz disse...

Boa noite, Kátia! Obrigado por apreciar o texto e compartilhar também sua experiência de criança do século passado. Lá parecíamos mais naturais. Naquele tempo tínhamos que cuidar cada família de seu próprio lixo produzido. E para isso, não contaminávamos tanto o solo. O mais espetacular é que inventávamos nossas brincadeiras e brinquedos. E nenhum de nós ficou depressivo por ter ajudado a família nas tarefas domésticas.
Pode usar o texto a vontade. Será uma honra para mim.
Grande abraço.

Professor Zeluiz disse...

Boa noite, Kátia! Obrigado por apreciar o texto e compartilhar também sua experiência de criança do século passado. Lá parecíamos mais naturais. Naquele tempo tínhamos que cuidar cada família de seu próprio lixo produzido. E para isso, não contaminávamos tanto o solo. O mais espetacular é que inventávamos nossas brincadeiras e brinquedos. E nenhum de nós ficou depressivo por ter ajudado a família nas tarefas domésticas.
Pode usar o texto a vontade. Será uma honra para mim.
Grande abraço.