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sábado, 17 de dezembro de 2011

EU BALANÇO, TU BALANÇAS, O ANO TERMINA

Dezembro será sempre, e covardemente, o mês dos balanços. Se você tem mais de 40 anos sabe que não estou falando de embalos, baladas, animação ou coisa e tal. Refiro-me à prestação de contas. Para os gastadores compulsivos ou não, é hora de invadir sofregamente as lojas e consumir. Comprar é a palavra de ordem do comércio que, se não inventou o Natal, vale-se dele como de uma vaca de quem se aproveita praticamente tudo. A palavra de ordem é: OCUPEM o empório. Já para outros, é tempo de fechar as contas, de confrontar ativo com passivo, de chorar sobre os débitos, de constatar a pindaíba ou de comemorar os dividendos. Para todos, indubitavelmente, hora de colocar muitos pingos nos “is”.
Há tempos sonho com a semestralidade oficial do ano. Acredito que dessa forma, diminuir-se-ia o impacto do dezembro na vida das pessoas e das instituições. E teríamos a vantagem de ver a vida se renovar pelo menos duas vezes em 365 dias mais ou menos. É tanta gente que deixa tudo para janeiro: o casamento ou a separação; o parar de fumar; a dieta; a poupança; as férias; a serenidade. Nas instituições então: a reforma ministerial; a demissão do gerente; o recomeço; a faxina ambiental; o atendimento competente; a seriedade.
Fico lembrando as relações comerciais de antigamente. Meu pai era dono de uma “venda” em Retiro e, nos anos de 1970, acompanhei razoavelmente os negócios. O crédito se chamava “fiado” e os lançamentos de débito eram feitos em cadernetas ou vales. A população rural era majoritária naqueles idos. A palavra valia mais que a assinatura – até porque a maioria era analfabeta. Não havia juros nem inflação. Pasme: o pai de família comprava durante o ano inteiro e a maior parte do débito só era paga na colheita. Não havia necessidade de SPC ou SERASA; mas, de vez em quando, um ou outro sabichão arranjava o prejuízo de algum comerciante.


Esse recorte, que também vem como balanço, me faz refletir sobre o mais importante componente da mudança social que temos vivido nos últimos 30 ou 50 anos: a aceleração. Não fosse a velocidade, e a longevidade dos atores, a mudança ficaria quase imperceptível.
Estou defendendo um paradoxo, parece. O ano passa mais depressa; entretanto, sustento que ele “feche” de 6 em 6 meses – pra balancete. Não há contrassenso em querer isso. Pois, a despeito da realidade que ruge, a legalidade é lenta e acomodada, uma pasmaceira. Por exemplo: nas universidades vige o período semestral. Por que razão, causa ou circunstância isso não vale também para o ensino médio e o fundamental regulares? Aliás, facilitaria que as crianças nascidas em mês posterior ao período de matrícula pudessem entrar na 1ª série logo que completassem 6 anos. Não entendo por que a Permissão para Dirigir tem 1 ano de prova ao invés de 6 meses ou os juros serem apresentados mensal ou só anualmente.
De todo modo, você está fazendo balanço ou balancete por estes dias. Espero que tudo esteja certinho; que todos os seus gastos agora estejam provisionados no orçamento da família pelo resto do ano novo. Minha intenção não é deixar você chateado, trazer-lhe reminiscências desagradáveis... Se o 13º está todo comprometido, é porque em julho já se tinha gastado metade dele. Pelo menos espero que se lembre: janeiro é um mês cheinho de contas a pagar. Desde a matrícula das crianças – baseada na anuidade –, as cotas únicas de IPVA e IPTU, os boletos e cartões de crédito dos delírios natalinos – aqueles agradinhos que no início deste ano você prometera não atrever-se novamente, até as juras que fez regadas a alguma bebidinha (hic) na virada do ano.
2011 não foi como os outros, que nunca foram semelhantes entre si. Foi melhor! A despeito disto e daquilo – da incompetência da administração municipal, exemplarmente –, os que estamos vivos temos sim que comemorar (hic). De minha parte (hic), obrigado por sua companhia (hic). Saúde!

Publicado na Estilo OFF - dezembro de 2011.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Palavras Cruzadas

Quando eu era menino pequeno lá em Retiro do Muriaé, o mundo era muito diferente e a TV em preto e branco. A gente não tinha Ipad, Ipod, tablet, celular, computador ou câmera digital. A coisa mais moderna de que se tinha notícia era a máquina de calcular. Os pedagogos discutiam se ela poderia ser usada na Escola. Os nossos professores não queriam nem ouvir falar de novas tecnologias; exigiam que a gente usasse mesmo era a cabeça. Nela se devia guardar a tabuada, um sem número de fórmulas, o verbiário, as classes das palavras, a análise sintática verbo ad verbum. E, detalhe, as famílias davam o maior apoio.
Desse tempo, minhas melhores recordações são as coleções. Não havia um só moleque ou menina que não se deixasse enlevar por aqueles conjuntos de objetos que guardavam como se cuida de preservar a própria vida. Há quem conserve até hoje bonecas, selos de correio, tampinhas de refrigerante, cartões postais, papéis de cigarro – com que fazíamos extensas correntes –, fotos de artistas, folhas e flores secas nas folhas do caderno, caderno de assinaturas (alguém ainda se lembra disso?), álbuns de figurinha, bolsilivros (mal vistos por alguns pais), gibis... Ah! os gibis. Mágicos, encantadores! Mas havia, entre tudo, uma coisa guardada como troféu: palavras cruzadas. Jovens que se atreviam a fazê-las eram distinguidos. À época, com o ensino enciclopedista na moda, um bom cruzadista era considerado intelectual.
O jogo das crossword, que remonta a Ramsés II, não é apenas um passatempo. O que já foi objeto de censura da ditadura militar brasileira é hoje utilizado com sucesso nas salas de aula e em preparação para o ENEM e outros exames de seleção. E, – vamos combinar – depois que descobrimos que mente vazia é oficina sim do alemão (Mal de Alzheimer), fazer uma cruzadinha é propedêutico e terapêutico.
Sendo assim, sem outra pretensão que não a de relembrar os velhos e novos tempos, preparei o joguinho abaixo para um singular exercício da memória dos que já têm cinquenta anos, e um tantinho de cultura para os mais jovens. Espero que curtam!

 ITAPERUNA PARA SEMPRE




Horizontal
8. Água de propriedades medicinais
11. Extinta agremiação carnavalesca
14. Ex-distrito emancipado
15. Autora de “O Desenvolver de um município”
17. Alcunha de ex-vereador criador de concurso para ele próprio passar
18. Apelido da única mulher eleita vereadora no município
19. Antigo bar no centro da cidade
20. Bar noturno
24. Maestro
26. Antigo jornal
29. Nunca recebemos a parcela desse imposto por incompetência dos gestores
30. Companhia de Teatro de Itaperuna
31. Pseudônimo de produtora de moda
34. Índios que habitavam a região
35. Imperador que visitou Itaperuna
39. Antigo time de futebol
40. Fábrica de freios
41. Sobrenome artístico de famoso transformista
42. Ex-pároco da São Benedito
43. Famoso hotel
45. Padroeiro
46. Como é conhecido o distrito de Nossa Senhora da Penha
47. Antigo morador de rua, depois recolhido ao Asilo
48. Antigo "preparatório" para o vestibular
49. Famoso diretor do colégio 10 de maio
50. Livro da nossa história
53. Antigo Magazine
54. Terra de Ary Moreira Bastos
55. Ponto turístico no 5º distrito
58. 1ª Faculdade de Licenciaturas
59. Avenida
61. Antiga aguardente que não é mais produzida
 
Vertical
1. Autora do hino do município
2. Médico respeitado
3. Mais badalada professora de língua portuguesa
4. Sobrenome do poeta que dedica “Ode ao café” a Itaperuna
5. Suplente de senador
6. Desbravador
7. Vereador pelo PDT Relator da Lei Orgânica
9. Distrito onde há uma usina hidroelétrica
10. Prefeito morto no exercício do 3º mandato
12. Mais nova Escola Municipal
13. Prefeito que criou o calçadão central
16. Poeta de “Meu sangue flui Fluminense”
21. Espirituoso farmacêutico
22. Última palavra no pórtico da cidade
23. Festa do município
25. Faz muita porcaria na cidade
27. 32 anos de pastoreio na Igreja Batista
28. Nome de rua central
32. Maior tempo de permanência como Secretária de Educação do Município
33. Antigo consertador de rádio em Retiro do Muriaé
36. Distrito onde fica o C. E. Senador Sá Tinoco
37. Banda de sucesso
38. Atual prefeito
41. Peixe que deu origem a um meteórico festival
43. Cantora lírica
44. 7º distrito
48. Velha casa de saliência
51. Artista global
52. Distrito era conhecido como “Oco-do-pau”
56. Clube da melhor idade
57. Jovem violonista
60. Revista da moda
62. Extinto clube popular
63. Antiga sala de cinema desativada
 

Prometi  mostrar a cruzadinha respondida, mas não resisti a completar apenas as vogais "A" para que você tenha mais uma oportunidade de acertar tudo.
Um abraço.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Que droga!

Estação do Estácio, 7 horas da manhã, domingo. Sentei-me para esperar o primeiro trem. Um metrô quase vazio. Nos bancos ao lado, um grupo de jovens uniformizados de garçom – pensei – deixam rolar um papo madorrento:
_ Hoje é dia de almoçar com o velho.
_ Vá te @*#%>, mané!
_ Eu queria mesmo é que ele pegasse um bagulho comigo. Mas meu pai parece não ser mais disso.
_ Com jeito todo mundo dá um tapa.
E o papo rolava solto. Uma aula sobre drogas ilícitas vulgares e os últimos lançamentos como o Ecstasy e o novíssimo Oxy. O gordinho alto fazia questão, com seu ar meio pedante, de mostrar que estava por dentro, e até detalhava os efeitos de suas mais recentes experiências. Explicava que o crack era uma cocaína bem mais barata. Uma “forma de democratização” do uso; acessível aos consumidores de baixa renda. Praticamente uma segunda linha; venda dirigida aos pobres.
_ Vem o trem aí!
Era mesmo. Já me impacientava aquela conversa mole dos universitários metidos a mauricinhos que faziam bico nalguma festa rave madrugada adentro para descolar uns trocados e muitos baseados. Aliás, refleti o porquê de num país onde os criminosos escondem a qualquer custo os seus malfeitos, esses jovens fazem confissão pública – a La Jóbson (Botafogo) – de seus usos e abusos drogatícios. De duas, três: ou não se importam com o julgamento alheio porque se acham superiores à sociedade, ou não consideram o ilícito do uso de drogas, ou as duas coisas.
Pus-me a pensar no premiadíssimo “Ilha das Flores”, largamente disponibilizado na internet como no endereço http://www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28. O curta de Jorge Furtado, feito em 1989, é excêntrico. Conseguiu a proeza de ser considerado ateu e religioso ao mesmo tempo, claro que por autoridades diferentes. Para ajudar meu leitor a entender a trama dou-lhe uma sinopse dos treze minutos do documentário:
Abertura – A câmera caminha em meio a uma plantação de tomates em direção ao senhor Suzuki, representante da raça humana. Os seres humanos se distinguem por ter um telencéfalo altamente desenvolvido e um polegar opositor.
Sequência – As imagens, explicadas por um narrador em off – mostram a produção e a comercialização do tomate do agricultor japonês até chegar à casa de dona Anete, que descarta para a lixeira um dos tomates que julgou impróprio para o consumo de sua família.
Final – a disputa entre porcos e seres humanos pelo tomate da dona de casa que chegou ao lixão.
Na verdade, o filme mostra “como a economia gera relações desiguais entre os seres humanos”. Esse é o ponto em que tomate é a metáfora da droga. O Solanum lycopersicum jogado fora por quem pode pagar por outros néctares é disputado entre porcos e gente. Só que os humanos levam larga vantagem, porque têm o encéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor – que faz o movimento de pinça e, nesse caso específico, é fundamental.
A discussão sobre o uso de drogas avançou no mundo todo nos últimos anos, sobretudo em razão da larga escala em que são consumidas. A Organização das Nações Unidas estima que 5% da população mundial seja consumidora de drogas ilícitas. Isso equivale a aproximadamente 200.000.000 (duzentos milhões) de usuários, eventuais ou frequentes, de maconha, cocaína, heroína, crack, anfetaminas, entre outras. Para tanto consumo, estima-se a produção anual de mais de 10.000 toneladas de drogas. Acho que a produção é muito maior. Caso não fosse, parte dela não seria descartada para o lixo. É como chamo o lugar onde os mendigos da droga vão buscar sua comida! Saldão de drogas baratas, que se arranjam nas cracolândias da vida; são os restos que caem da mesa dos donos. E, de propósito, são colocados para a disputa entre porcos e o que resta de humano em usuários obstinados que, agora, só têm o polegar opositor.
No meu tempo, usar um baseado era coisa de hippies, rockeiros e modernosos de outras estirpes. Mas, agora, o consumo de drogas ilícitas pela juventude banalizou-se. E, por isso, é tão difícil convencer usuários de drogas a se livrar delas com o argumento de que fazem mal à saúde – como insistem as campanhas contra o tabagismo, por exemplo. Todos eles sabem disso. Experimentam, dependendo da natureza da droga e da frequência, os distúrbios orgânicos e psicossomáticos que provocam. Há ainda campanhas completamente equivocadas do tipo “Não às drogas”, “Drogas, tô fora” ou “Sou careta, não uso droga” que, usando uma linguagem pseudomoderna – na verdade, negativista –, vão de encontro ao desejo de liberdade e ao gosto pela rebeldia característicos da juventude. E, assim, não logram efeito sobre os drogatícios. Pois não fazem ver aos usuários seu lugar na imensa e sórdida cadeia que alimenta a violência contra gente inocente dentro e fora da teia do consumo.
Vira e mexe, somos sacudidos pela perda de jovens que se envolvem de alguma ou de todas as maneiras com as drogas. São mais mortes por homicídio do que por overdose. As famílias estão perdendo seus filhos e filhas na sangrenta disputa entre porcos e os polegares opositores. Até quando?!
Pois é! Zangaram comigo porque, no último artigo, disse que “existem muitas oportunidades desperdiçadas por aí”. Infelizmente, terei que continuar dizendo isso. Não foram mais de dez os professores da região que fizemos o Curso de Prevenção ao Uso de Drogas para Educadores de Escolas Públicas oferecido largamente pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
Tão absorto estava que não me dei conta...
_ Estação Cardeal Arcoverde!
Já não vi mais nenhum dos jovens protagonistas daquele papo-retrô. Desci para cuidar da própria vida.

Publicado na Estilo OFF - outubro/2011.