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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Outro olhar sobre a Escola

A sociedade acredita que educação e escolaridade são a mesma coisa. É por isso que se imputa aos graduados um respeito meio obsequioso ou uma deferência subserviente. Há bem pouco tempo, não se admitia um presidente da república sem os estudos superiores que o faziam DOUTOR em alguma coisa. Mesmo que o prefeito ou o deputado não tivessem formação universitária, logo lhes arranjavam um “deerre” por conta do mandato. No campo do caráter profissional, data da idade média o uso da palavra doutor para designar aquele que tinha alcançado autorização para lecionar. Afinal, o vocábulo tem origem no latim docere que significa ensinar. Hoje em dia, como resquício da sociedade medieval, os graduados em direito e em medicina, por exemplo, mantêm o privilégio de serem tratados de doutores. Entretanto, legalmente, só os que concluem uma pós-graduação stricto sensu conquistam a prerrogativa - ainda sem a consagração do uso - dos títulos de mestre e doutor. De toda forma, as palavras perderam sua ligação histórica com o ato de ensinar para privilegiar o status social de um outro exercício profissional qualquer como advogar, construir pontes, cuidar da saúde de animais etc.

A eleição (2002) do presidente Lula quebrou, certa e certeiramente, a premissa de que a escolaridade seja um pré-requisito ao cargo mais alto da nação. Para os críticos do presidente, sua eleição abre um “terrível” precedente: as nossas crianças não irão querer mais estudar, uma vez que não será preciso de escolaridade para se chegar ao mais alto cargo dirigente do país. É a isso que chamo de sofisma, um argumento aparentemente válido colocado como pedra no meio do caminho para fazer-nos tropeçar na mentira. Não há nenhuma contradição no fato de o mesmo Lula - ainda chamado de analfabeto pelos que acham a escolaridade mais importante que a educação -, que denunciara haver mais de “300 picaretas com anel de doutor” no Congresso Nacional, ser o responsável por um programa como o ProUni, que só no ano de 2008 ofertou mais de 200 mil bolsas a alunos pobres que de outra forma nunca chegariam a ter um título de doutor. Agorinha mesmo, o ministro Haddad está propondo o fim dos vestibulares, que eu sempre achei uma excrescência, em favor do Enem. Todos os especialistas acreditam que, em sendo assim, haverá uma intensa reformulação, que já passou da hora, no nosso Ensino Médio com importantes consequências que se espraiarão até os primeiros anos da escolarização.

Em grande estilo, a nossa Revista Off abriu na última edição o debate sobre a Educação. A abordagem foi a cerca dos conflitos dentro das salas de aula entre alunos e professores sob a ótica da busca de culpados. Eu não posso me furtar a discutir essa temática. Se contar os tempos da catequese, estou nessa peleja há mais de 20 anos. Quero aqui dar umas no cravo e outras na ferradura.

Uma ex-aluna do ISE de Itaperuna contou-me uma vulgaridade e pediu-me que acreditasse, pois ela fora testemunha dessa peça de um ato só.

(mãe espera para conversar com a professora. As duas tentam dialogar no pátio enquanto a pequena - 6 ou 7 anos - rodopia entre as duas atrapalhando a conversa. Na impossibilidade de continuarem o diálogo porque a criança perturba, a mãe, impaciente, dedo em riste, aponta para a menina.)

_ Menina danada, sua professora não te dá educação não?

Na raiz dos conflitos na escola estão alguns componentes evidentes e outros nem tanto. A fala acima revela, aqui sim, uma contradição entre escolaridade e educação. Ao cobrar da filha um comportamento civilizado, a mãe manda uma mensagem oculta para a professora: você não está fazendo o papel que eu te dei ao matricular minha menina nesta escola.

Os professores, mesmo sem títulos de mestre ou doutor, precisamos cair na real. A despeito dos velhos discursos de que não estamos preparados para isso, não somos psicólogos, não somos assistentes sociais, não somos fonoaudiólogos, não somos neurologistas... a sociedade e os governos já nos entregaram esses papéis faz tempo. Estudemos! Afinal, nós temos ou não metodologia?

_ Não ganhamos para isso!

É muito mais honesto dizer que não queremos investir nisso.

_ A família não participa, não podemos contar com ela.

Faz tempo que já sabemos disso. Por que não assumir o papel e mudar o disco da vitrola. Qual é o motivo: egoísmo, misantropia ou incompetência?

_ Essas crianças não têm limites, não nos obedecem.

Reconheçamos! Alguns de nós temos práticas pedagógicas tão antiquadas que os alunos não acreditam que estão diante de algo real, mas de uma fantasia. E por isso dizem que a escola é extremamente chata. E eu, algumas vezes, sou obrigado a concordar.

_ Ah! Acho que vou pegar um atestado...

Viva! Hurra! Assim é que irão festejar os alunos a nossa ausência. E é assim mesmo que estamos roubando deles a oportunidade de escolarizá-los e de educá-los para a vida toda. A nossa ausência consentida e forjada nos põe no mesmo patamar de suas famílias distraídas e alheias.

_ Por que não baixam a maioridade, então? Temos bandidos aqui na sala.

Então devíamos mandar também para a cadeia os doentes, os mendigos, os órfãos e as viúvas? Somos os mesmos que desejamos um sistema penitenciário que eduque e reintegre os criminosos?! Ah, valha-me Deus, professores e professoras, se nós não pudermos educar nossas crianças, entremos de férias ad aeternum.

Mas, é claro, que eu mato um leão por dia em minhas turmas. Antes disso, eu penso muito no que irei falar com eles na segunda-feira de manhã. Não chego de mãos abanando e nem acredito no poder fascinante e “disciplinador” do quadro negro, do cuspe e do giz. E gosto de ver naquele mais remelento um filho meu. Dialogo.

E sempre me enfureço com os maus exemplos sociais, quando procuro dar aos meus alunos um “choque de futuro” - fazendo-lhes pensar no que querem para suas vidas. Fico fulo da vida com os escândalos dos políticos na malversação do dinheiro público, com as descomposturas dos ministros do STF. Encolerizo-me de ver o apelo ao consumo de bebidas alcoólicas ajudados por ídolos da juventude como Ivete Sangalo, Dudu Nobre e Ronaldinho. Fico irado de verdade ao ver um jornalista como o Pedro Bial chamar os “bródi” de nossos heróis. Entretanto, não posso levar minha sala de aula para Marte; fazer o governador ou o prefeito aumentar o meu salário; melhorar a conexão do meu laptop emprestado pelo Estado; formar uma turma só com os “bons” alunos e alunas; reformar os currículos oficiais da educação; convencer as famílias a cuidarem melhor dos filhos e a participarem do processo educativo e escolar; persuadir os traficantes a não usarem menores na distribuição de drogas; impedir que maus pais espanquem seus filhos; refazer o ECA; adotar o período integral em todas as escolas de educação básica do Brasil.

A Escola vive uma crise? Sim. A Escola é uma crise, um lugar de atritos e de mudanças. É na dinâmica dos encontros e desencontros que polimos uns aos outros e nos transformamos, isto é, educamo-nos. Às vezes essa fricção causa certo incômodo, pois remexe as convicções sedimentadas da formação profissional dos professores. Muitas vezes precisamos fingir esperança. Claro que não é fácil superar todos os desafios impostos pelo dia a dia do processo educacional, as idiossincrasias! O que me dá força e determinação nas ocasiões de ceticismo e cansaço é uma frase de Sartre: "O importante não é o que fazem de nós, mas o que fazemos daquilo que fazem de nós.” A escola é, ainda, indubitavelmente, uma casa de Educação onde nossos filhos e filhas alcançam, também, para efeitos formais, a escolarização. A escola segue... melhor que a sociedade, pois é feita de educadores.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

http://professorzeluiz.blogspot.com/

quarta-feira, 8 de abril de 2009

No balanço dos dias

Nada como um dia atrás do outro

Tenho essa virtude de esperar

Roberto Correa e Sylvio Son


Pelo Brasil afora, muita gente provavelmente está fazendo análise dos 100 dias de governo municipal. É quase uma lei de imprensa que se façam cobranças, se relembrem promessas, se cobrem atitudes do prefeito empossado em 1º de janeiro. Não sei o quanto há de cabalístico nesse número redondo de dias, mas é fato que nos acostumamos a dividir o ano em seções semestrais, quadrimestrais, bimestrais... coisa de uma mentalidade cartesiana que insiste em nos fazer ver do todo, só uma parte de cada vez. Mas é com essa lógica que a crítica escarninha trabalha. E, ainda costuma usar a maquiagem do senso comum – “pelo andar da carruagem...” – para dar à coisa um ar mais verossímil e sapiente. O diabo é que nessa conta, quase sempre, só entram os débitos (mesmo os de médio e longo prazos); alguns créditos ficam por conta do “não fez mais do que a obrigação”.

De toda forma, os primeiros cem dias do ano não deveriam entrar na conta de nenhum balanço, pois o ano novo nunca começa quando termina o velho. Não é à toa que sempre estamos diante de anos que não terminaram como o de 1968 – dando o que falar e escrever ao Zuenir Ventura – insistindo em se sobrepor até aos recentes anos deste outro século, quando desenterram seus mortos e nos surpreendem com seus fantasmas insepultos. Porque, na verdade na verdade, os trinta-e-um-de-dezembro não encerram nada, apenas a validade da folhinha amarelada pendurada na parede.

Há ainda os anos que não começam. Aliás, acho que os anos não se iniciam aqui no Brasil, pelo menos até o carnaval. Então já são cinzas e ficamos 40 dias esperando a ressurreição que não é um ano novo; mas, um (re)começo.

Gosto de reler uma crônica do Veríssimo intitulada “Caderno novo”. Ele e alguns amigos se reúnem para eleger a melhor sensação do mundo entre as publicáveis, mesmo numa revista de vanguarda como a ESTILO OFF. E concluem, não sem dificuldade, ser o caderno novo. Amo essa metáfora. Porque a despeito de hoje em dia as papelarias nos quererem “enfiar” fichários caríssimos em cujas capas se estampam um ícone qualquer da efemeridade – em três ou quatro meses a moçada inventa um jeito de fazer a família comprar uma nova capa – o velho caderno-novo é um mundo vasto.

Lembro o meu caderno de pauta com as folhas juntadas com dois grampos que não permitiam tirar meia folha da primeira metade sem comprometer a correspondente da direita. Com suas páginas em branco ainda por serem escritas; aquele mundo de folhas-dias que a gente imagina que terá e, o que virá, folheando depressa com o polegar de uma máquina de contar dinheiro. Tudo branquinho: um convite pra tantas coisas... o indicador molhado no mataborrão da boca a passar uma a uma as páginas virgens; o roçar com a mão espalmada cada centímetro de celulose; o cheiro inebriante de novidade... uma sensação de possibilidades incontáveis.

Diante do caderno novo – um ano que não começou –, que encapávamos no último gosto e com plástico também, jurávamos solenemente mantê-lo limpo e em dia. Prometíamos ser cuidadosos; cidadãos respeitáveis; pessoas melhores... essas coisas que se dizem em juramentos. Entretanto, vinham a roda viva das horas, o balanço dos dias e a rotina das semanas e, então, voltávamos a ser os mesmos e a vivermos “Como os nossos pais”. Mas aí o caderno já não era mais novo... – um ano que não acabou e nós já torcendo pro apito final.

Quando me permito ser menos egoísta, vislumbro os interesses sociais. E me preocupo com as pessoas e com as demandas de todos nós. Por isso acho que 2008 não se acabou graças a pelo menos três eventos que invadiram 2009:

  • A imprensa diz que o mundo saúda a eleição e a posse de Obama como se fosse o salvador do planeta e o apaziguador dos povos. Muitos concordam com isso pelo fato de o presidente ser jovem e negro. É preciso saber, contudo, o quanto ele se sente negro; não nos esquecer de que é norte-americano. E, quanto ao fato de ser jovem, nós itaperunenses somos gatos escaldados.
  • O senado insiste em aumentar o número de vereadores pelo Brasil afora. Minha nossa! Pensei que a democracia caminhasse para o fim do Legislativo com o povo interagindo no ciberespaço, tomando decisões online nos referendos e plebiscitos na web e no celular, mas não! Aumentam o número de vereadores para afastar-nos cada vez mais das "decisões". Será que os senadores não sabem que vereador só cria firula para levar ainda mais vantagem do prefeito que precisa ter maioria – ainda que comprada – para administrar? Aliás, por falar em senado... Deixa pra lá!
  • A enchente de dezembro deve ser um fantasma a cobrar planejamento do novo governo municipal. É mister reconhecer que a natureza foi a grande atriz do cataclismo. De toda sorte, não podemos esquecer de que algumas ações públicas como o desassoreamento do Rio Muriaé, um projeto de drenagem urbana, uma usina de reciclagem do lixo, o reflorestamento das encostas, o arco viário da BR 356 e outras teriam minimizado esta catástrofe e acabado com tantas menores que nos azucrinam o ano inteiro.

Sinceramente, 2008 já vai tarde, se deixarmos. O nosso prefeito Claudão, a esta altura, já tem encapado o seu caderno novo, com juramento solene e tudo mais. Já escrevera algumas linhas caprichadas: o socorro às vítimas mais sacrificadas pelas enchentes, a coleta de lixo, o calçamento da entrada de Retiro do Muriaé, o carnaval... Por falar nisso, dá pra fazer muita coisa agora que Momo já devolveu a chave da cidade: mudar o clima, reescrever um plano urbanístico, reconstruir a cidade... e até fazer 2009 começar. A gente espera.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

http://professorzeluiz.blogspot.com/

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ver não é coisa natural

Não digam nunca: Isso é natural!
A fim de que nada passe por ser imutável.
Bertolt Brecht


Outro dia um aluno da 1ª série do Ensino Médio produzira um texto que me surpreendeu: escreveu que houve um tempo em que bastava os pais olharem para o filho a fim de que esse entendesse a crítica a seu comportamento e mudasse de atitude. De fato, lembro-me da história do Ademir - um jovem com quem eu trocava revistas de super-heróis em Retiro do Muriaé da década de 1970. Naquele tempo de futebol amador, a gente acompanhava os times na carroceria do caminhão do seu Paulo. O “Dênis” estava lá, mas antes do carro sair, seu pai - um senhor às antigas - chamou o moleque no meio dos colegas: _ Dêni, desce! Cê não encheu a taia e num barreu o terrero, desce.

Não teve jeito. Ele desceu. Não havia espaço e nem tempo para questionar a decisão do pai. Era uma ordem que emanava de uma autoridade, simplesmente. Os companheiros, mãos à boca, contínhamos o riso e o escárnio até que o senhor Saturnino se afastasse levando o rapazinho sorumbático.

O psicologismo, na esteira da (re?)democratização do país, bateu forte contra o que chamou de autoritarismo patriarcal. Entretanto, naquele tempo, não havia pai ou mãe que não soubesse exatamente o que fazer com os filhos, como educá-los, impor-lhes LIMITE.

Hoje encontro dezenas de responsáveis que não conseguem educar crianças e adolescentes. Alguns acham isso muito natural: _ É a evolução, dizem.

Particularmente, penso que aí há mais de banalização da autoridade e de regurgitação da desobediência. Parece que os filhos estão ficando cegos e surdos. A meninada, primeiro, ficou cega: o olhar dos pais já não diz nada, porque essa atitude demanda tempo e sensibilidade de lado a lado e parece que agora já ninguém olha nos olhos de ninguém. Depois as crianças ficaram surdas: Os pais falam - alguns decibéis acima -, mas acho que entra num ouvido e sai pelo outro. Isto quando não estão entupidos com os fones de seus MP3, MP4, celulares etc. Está havendo uma revolução na relação entre pais e filhos. Os resultados podem ser constatados, porém a análise do fenômeno não é nem um pouquinho simples. De toda sorte, não deve ser à toa que venho ouvindo, cada vez mais, pessoas se lembrarem de como foram educadas pelo olhar dos pais. Aliás, o professor Rubem Alves sempre disse que “O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido. A primeira tarefa da Educação é ensinar a ver...”.

O ano letivo finalmente começou. Com ele os pais entregam uma cota-parte da tarefa de educar à Escola. Ainda que muitos responsáveis coloquem seus filhos na escola para brincarem; para serem alfabetizados; para aprenderem uma profissão; para fazerem o vestibular; para não serem importunados pelo Conselho Tutelar; para ganharem bolsa família; para ocuparem a criança; para se livrarem dela... a tradição diz que a escola EDUCA.

Não me canso de acreditar que a Escola é melhor do que a Sociedade. Senão, que possibilidades teríamos de melhorar as relações humanas? Muitos críticos da Escola terão uma vasta lista de seus defeitos e mazelas, mas sempre se esquecem de quantas crianças a escola vem salvando de suas famílias. Faz-se isso apesar dos (des)governos.

Aliás, sabemos que a “política” costuma impor uma pedagogia ziguezagueante à escola. Cada governo acha que pode jogar fora todo um trabalho educacional por mera opção “ideológica”. A educação que temos hoje no Brasil, com toda a crítica que se possa fazer, não é projeto de um ou outro governo. Ela vem sendo construída pelos profissionais, educadores que têm dado suas vidas pela crença de que a escola pode educar.

Em geral, os administradores que assumem um mandato, em qualquer esfera, não têm um projeto educacional partidário nem pessoal; têm, às vezes, intenções. É por isso que devem ter a delicadeza de ouvir e ver as pessoas e a realidade. Fico muito triste, e às vezes raivoso, de ver políticos fazendo ingerências na Educação simplesmente por vingança, por perseguição, por clientelismo, por fisiologismo... Em quase 100% das vezes não discutem competência; se vergam à contingência dos favores, das promessas e das dívidas eleitorais.

Também sou a favor de mudanças. Elas seriam necessárias se não fossem inexoráveis. Mas toda mudança deve ser uma construção, principalmente em se tratando da educação pública. Em agosto do ano passado escrevi aqui, em relação ao Ideb de Itaperuna, que “A rede municipal de ensino apresentou números razoáveis que podem ser melhorados. Nas séries iniciais avançamos de 4,6 para 5,0; entretanto, regredimos de 4,5 para 4,3 nas finais. Nosso entendimento é que o maior esforço - leia-se investimento - deve ainda estar concentrado na educação infantil, como já vem sendo feito.”. Portanto, isso é um legado e não despojos.

A nova SEMED precisa levar em conta muitas coisas antes de se arriscar na exacerbada politização dos cargos nas escolas. O governo do Estado do Rio tem investido fortemente na formação dos gestores da sua rede de ensino. Mesmo que esses sejam eleitos pela comunidade escolar, o Estado os trata antes como servidores. Não estou sugerindo eleições nas escolas municipais; apregoo que seu corpo docente seja tratado como servidores públicos, que têm direitos e de quem podemos cobrar deveres e resultados.

Itaperuna vive a síndrome da Educação Colonial: achamo-nos muito importantes, porque temos várias universidades, com múltiplos cursos para todos os gostos e desgostos. Contudo, é preciso que nos lembremos de que mais importante que isso é a Educação Básica. Se esta não for de qualidade, a Educação Superior capenga. Caso não cuidemos de educar nossas crianças e jovens, tempos virão - e eles já estão aí - em que o MEC, que não é cego e nem surdo, se verá na contingência de proibir vestibulares e fechar cursos. Pois se a escola faz o aluno, o aluno faz a escola. Só não vê quem é cego.


Publicado na REVISTA ESTILO OFF em março de 2009.

Professor Zeluiz

Centro Interescolar de Agropecuária de Itaperuna

azeluiz@oi.com.br

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

2009 PRECISA COMEÇAR

Por que razão, motivo ou circunstância o ano novo nunca começa quando termina o velho? Creio que há algo de metafísico, na passagem de um ano, que rompe o calendário seja ele hebreu, egípcio, juliano, gregoriano - como o nosso - ou chinês. Não é à toa que sempre estamos diante de anos que não terminaram como o de 1968 - dando o que falar e escrever ao Zuenir Ventura - insistindo em se sobrepor até aos recentes anos deste outro século, quando desenterram seus mortos e nos surpreendem com seus fantasmas insepultos. Porque, na verdade, na verdade os trinta-e-um-de-dezembro não encerram nada, apenas a validade da folhinha amarelada pendurada na parede.
Há ainda os anos que não começam. Aliás, acho que os anos não se iniciam aqui no Brasil, pelo menos até o carnaval. Aí já são cinzas e ficamos 40 dias esperando a ressurreição que não é um ano novo, mas um recomeço.
Gosto de reler uma crônica do Veríssimo intitulada “Caderno novo”. Ele e alguns amigos se reúnem para eleger a melhor sensação do mundo entre as publicáveis, mesmo numa revista de vanguarda como a ESTILO OFF. E concluem, não sem dificuldade, ser o caderno novo. Amo essa metáfora. Porque a despeito de hoje em dia as papelarias nos quererem “enfiar” fichários caríssimos em cujas capas pairam um ícone qualquer da efemeridade - em três ou quatro meses a moçada inventa um jeito de fazer a família comprar uma capa nova - o velho caderno-novo é um mundo vasto.
Imagino o meu caderno de pauta com as folhas juntadas com dois grampos que não permitiam tirar meia folha da primeira metade sem comprometer a correspondente da direita. Com suas páginas em branco ainda por serem escritas; aquele mundo de folhas-dias que a gente imagina que terá e, o que virá, folheando depressa com o polegar de uma máquina de contar dinheiro. Tudo branquinho: um convite pra tantas coisas... o indicador molhado no mataborrão da boca a passar uma a uma as páginas virgens; o roçar com a mão espalmada cada centímetro de celulose; o cheiro inebriante de novidade... uma sensação de possibilidades incontáveis.
Diante do caderno novo - um ano que não começou -, que encapávamos no último gosto e com plástico também, jurávamos solenemente mantê-lo limpo e em dia. Prometíamos ser cuidadosos, cidadãos respeitáveis, pessoas melhores... essas coisas que se dizem em juramentos. Entretanto, vinha a roda viva dos dias, a rotina das semanas, o balanço das ondas e voltávamos a ser os mesmos e a vivermos “Como os nossos pais” - obrigado, Belchior!!! Mas aí o caderno já não era mais novo... - um ano que não acabou e nós já torcendo pro apito final.
Quando me permito ser menos egoísta vislumbro os interesses sociais. E me preocupo com as pessoas e com as demandas de todos nós. Por isso acho que 2008 não se acabou graças a pelo menos três eventos que invadiram 2009:
  • A imprensa diz que o mundo saúda a eleição e a posse de Obama como se fosse o salvador do planeta e o apaziguador dos povos. Muitos concordam com isso pelo fato de o presidente ser jovem e negro. É preciso saber, contudo, o quanto ele se sente negro; não nos esquecer de que é norte-americano. E, quanto ao fato de ser jovem, nós itaperunenses somos gatos escaldados.
  • O senado insiste em aumentar o número de vereadores pelo Brasil afora. Minha nossa! Pensei que a democracia caminhasse para o fim do Legislativo com o povo interagindo no ciberespaço, tomando decisões online nos referendos e plebiscitos na web e no celular, mas não! Aumentam o número de vereadores para afastar-nos cada vez mais das "decisões". Será que os senadores não sabem que vereador só cria firula para levar ainda mais vantagem do prefeito que precisa ter maioria - ainda que comprada - para administrar?
  • A enchente de dezembro deve ser um fantasma a cobrar planejamento do novo governo municipal. É mister reconhecer que a natureza foi a grande atriz do cataclismo. De toda sorte, não podemos esquecer de que algumas ações públicas como o desassoreamento do Rio Muriaé, o reflorestamento das encostas, um projeto de drenagem urbana, o arco viário da BR 356 e outras teriam minimizado esta catástrofe e acabado com tantas menores que nos azucrinam o ano inteiro.
Sinceramente, 2008 já vai tarde se nós deixarmos. O nosso prefeito Claudão, a esta altura, já tem encapado o seu caderno novo, com juramento solene e tudo mais. Dá pra fazer muita coisa antes do carnaval: mudar o clima, reescrever um plano urbano... e até fazer 2009 começar.