Dar crédito ao pessimismo nunca é investimento que me atrai. Ao
contrário, sou um recalcitrante otimista. Mas isso não impede que na análise do
balanço desses últimos anos tenha que reconhecer a dificuldade de se manter, ao
menos, o entusiasmo; ou pelo menos, o mesmo entusiasmo.
Lembro perfeitamente que estive na torcida pelo fim de 2015. Afinal, o
tal parecia um ano completamente disposto a não terminar. Quem tinha fé rezou
para que acabasse logo. E que próspero ano novo surgisse das bolhas vaporosas
dos espumantes de todas as cores sociais que subiam aos céus como fumaça de
incenso, para dar a isso um pouco do fervor do espírito reformista que parecia
impor-se no país. Porque, convenhamos, muito acima da linha da pobreza há uma
aristocracia que se preocupa com a qualidade dos croiassant que come enquanto
os bárbaros saqueiam seus palácios.

Todo ano deveria obedecer ao calendário civil e terminar exatamente em
31 de dezembro. Também sou a favor de uma Lei Complementar de Responsabilidade
“promessal”: tudo que se comprometeu cumpra-se a começar pelas promessas mais
recônditas que fazemos a nós mesmos no momento da queima de fogos. Falo disso
porque a passagem do ano é o momento em que cada um de nós é mais benévolo
consigo e com os outros. É quando, num rasgo de racionalidade resolvemos o
dilema pós-moderno do modelo definitivo de desenvolvimento econômico. É quando
achamos a incógnita da solucionática que equaciona a segurança da poupança e o
crescimento pelo consumo, com investimentos para a infraestrutura e o controle
inflacionário. No nosso caso brasileiro também com o dólar domesticado, pois
entre uma ida e outra a Miami é preciso garantir as vantagens da balança
comercial favorável aos made in
Tabajara. Afinal, ninguém pode deitar eternamente em commodities esplêndidas num mundo que muda sem parar.
Mas entramos finalmente! Após a década de crescimento pelo consumo com
distribuição de renda, poupança Cancún, farra do filé mignon e universidade
para todos ao tratado geral de congelamento dos gastos chamado tecnicamente PEC
241. Meu resumo é que vivemos um debate nacional sobre o social cobertor curto
e os privados interesses compridos.
Invadidos ainda por 2013 – um desses anos que dura até hoje –, vê-se que
uma parte da população exagera na dose de pessimismo proposital e a outra
metade de otimismo nefelibata. A sensação que todos experimentamos é a de
provisoriedade. Além do que, menos assombra nosso otimismo a invasão dos tempos
passados no presente do que esse cheiro de 2018 em tudo o que se faz na
política nacional. Sim, isso nos deixa a convicção de que não são os interesses
da nação que estão na ordem do dia, mas os projetos grupais de poder.
Minha mãe, quase analfabeta, não sabia que nos ensinava por axiomas.
Para todas as situações ela se socorria no senso comum. Era uma pedagogia
passada de mãe para filhos que nos fazia ver para além dos significados. Nesse
caso da PEC ruidosa, ela diria que “em casa que falta pão, todos gritam e
ninguém tem razão”. E aproveito para cunhar um aforismo: depois da incontigencialidade
sempre vem a desesperança.
Hoje amanheci pensando em Drummond. Nem tanto sobre pedras no caminho. Me
veio essa comparação que se pode fazer do Brasil com o ônibus que carregava o
passageiro recalcitrante. A gente não pode aceitar ser expulso do coletivo sem
saber exatamente o que está acontecendo. A gente não deve se conformar com um
destino que não escolhemos. É mais saudável não se fiar em que os deputados e
senadores cuidam dos interesses do povo em Brasília. Essa democracia
representativa já deu. Mais importante: É melhor não acreditar em tudo que a
grande imprensa diz, pois nesses tempo de pretensa penúria e de propalada
contenção de despesas, o governo federal continua gastando, e muito, com
publicidade para colorir a realidade e nos expulsar do ônibus sob a alegação de
que somos teimosos.
Publicado na OFF - novembro/2016