Deve haver dois ou mais motivos para que as eleições municipais estejam
tão mornas em pleno julho. É um
paradoxo que, num país onde a população tem saído ininterruptamente às ruas nos
últimos 3 anos em manifestações políticas dos mais variados matizes, se veja
agora este marasmo quanto às próximas eleições municipais, logo elas que são as
mais próximas do povo. Será que a realidade da política nacional jogou nas
cordas o sistema político brasileiro afastando de vez o povo do processo
eleitoral? É uma possibilidade.
Certo mesmo é que a justiça eleitoral
mexeu no calendário das eleições de modo que as campanhas ficaram mais próximas do fim. Para isso, entre outras medidas, reduziu de 90
para 45 dias o prazo legal de campanha e criou mais dois canais para denúncia
de malfeitos: uma página do facebook
(https://www.facebook.com/trerj) e o número (21) 995335678 de whatsApp.
O tribunal eleitoral está de olho, principalmente, nas propagandas antecipadas
(antes de 16 de agosto) e no abuso do poder econômico.
Uma razão concreta para o desânimo dos políticos é a posição do Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) que tenta banir de vez o financiamento empresarial das
campanhas. Isso tem sido o pesadelo de várias candidaturas, sobretudo as que
tradicionalmente se organizam por grupos de poder econômico país afora.
Em Itaperuna, conhecer um pouco da história eleitoral do município pode
ajudar a antecipar o que está por vir. Não precisa muita experiência na
análise, pois em nosso município os resultados eleitorais não surpreendem.
Costumo dizer que aqui, o grupo de poder é único, mesmo não sendo totalmente
hegemônico. Nenhum candidato a prefeito, até hoje, se elegeu fora do reich.

Em 2012, o candidato eleito – Alfredão – teve 56,9% de sua campanha
financiada por empresas direta e indiretamente. É curioso que entre os
candidatos que chegaram quase empatados respectivamente em 2º – Paulada – e em
3º – Dr. Roninho – somente esse teve financiamento empresarial da ordem de
32,4%.
Já o vencedor das eleições de 2008 – Claudão – não teve um único tostão
dos empresários da cidade. O segundo colocado – Daruís – foi ajudado em 67,2%
de suas despesas por empresas. Aliás, este foi o ano em que saiu derrotada,
pela primeira e única vez a candidatura que investiu mais e apresentou a maior
despesa de campanha. Explicação: venceu a memória afetiva do povo. Uma
excepcionalidade que sempre escapa às pesquisas de opinião!
Nas eleições de 2004, a campanha mais cara – Jair Bittencourt –, que
teve 67,2% de financiamento empresarial, é que saiu vitoriosa tendo gastado o
dobro da despesa do segundo colocado.
Desde quando nesse país o voto se tornou obrigatório, é que se
“institucionalizou” sua compra e venda. Pode parecer um exagero, mas sempre
digo que, salvo poucas e honrosas exceções, os mandatos neste país são comprados.
Isto é, o preço do voto é o novo cabresto. Não é gratuitamente que se aculturou
o povo de que a democracia – que pretensamente é o regime da civilitude –
somente se legitima pelo voto. E o voto se tornou solução dos dissensos. Por
meio do voto tudo se resolve: desde a escolha da cor do piso da sala até se se
mantém um país na União Europeia ou não, passando agora pelo voto para diretor
de escola estadual há pouco aprovado na ALERJ.
Só pra lembrar: de ordinário, nas eleições municipais, quem gasta mais
dinheiro é eleito prefeito, vereador, o diabo a quatro. Tendo por base as
eleições de 2012, aviso aos candidatos a prefeito que o voto aqui custou R$
8,98. Quem pagou R$ 13,80 virou prefeito de Itaperuna.
Publicado na OFF - julho/2016