Depois de certa idade não
descobrimos quase nada; constatamos. A rigor, não há muita surpresa na
realidade circundante. Aliás, nada que de certa forma já não nos estivesse
anunciado através da perspectiva do olhar e da experiência acumulada tornados, inapelavelmente,
conhecimento de mundo.
Dizer que descobri é toda
vida mais interessante do que um “achei” ou “encontrei”, que fica parecendo
coisa do acaso. Já a descoberta tem o emblema do Eureka (!), assim mesmo com o encanto que exerce sobre os
tupiniquins uma expressão em língua estrangeira. Quanto mais se for no idioma
de Arquimedes. Mesmo em inglês, com o seu Insight,
dá um ar de intelectualidade.
Chega desse preâmbulo e
vamos ao assunto desta bagaça de março aqui na OFF. Descobri que praia não é
somente mar. E que carnaval não é exclusivamente marchinhas e samba enredo. Foi
preciso ter nos hospedado na casa de veraneio dos pais de nosso amigo Silvinho
Monteiro, em São Francisco do Itabapoana, durante a folia de momo, para compreender
o óbvio.
Eu teria, com gosto, ficado
tomando minha cerveja com a vista dos moinhos de vento do parque eólico de
Gargaú. Todos os dias, por que não?! Mas insistiram em quebrar minha paz
madorrenta. Velocidade não é coisa que me atraia, por isso prefiro ver as ondas
e ouvir sua música malemolente quando quebram na praia. Tenho preferência pela
calmaria. Mas sei o que a pressa exerce em certos espíritos insurgentes. Na
minha modesta opinião, as pessoas, amantes da velocidade 5 do Creu creem poder
fugir de si mesmas. O Roberto Carlos, no século passado, já registrara esse
fascínio como fuga em 120... 150...200...km por hora. A mim causa
vertigem quase desatino.
Vencido, me deixei levar até o Bar do Chiquinho -
pérola escondidinha lá na curva do S - entre Santa Clara e Sossego. Surpresa! A
música que tocavam era bossa daquelas que nos permite encontrar com nós mesmos,
e com os outros coadjuvantes da nossa história, sem esbarrar ou atropelar
ninguém. Além disso, eram talentos itaperunenses que se faziam brasa pra assar
a sardinha dos são franciscanos. O trio era capitaneado pelo maestro René
Zanelli, vivo pra sempre, que sugeria a Adalto e a Jairo Muniz que o
acompanhassem no melhor da MPB sem pressa que vai de Ary Barroso a Lupicínio
Rodrigues, passando por Ataulfo e Adoniran e por um montão de grandes
compositores que não há espaço aqui pra nomear. Às vezes, a cantoria civilizada
era abafada, mas não derrotada, pelos alto-falantes móveis que passavam na
estrada em frente gritando um funk
raivoso. O bar é tudo de bom para quem não é doente do pé e gosta de comida e
música brasileiras honestas. Nele há grande chance de ser recebido ao som dançante
de “Eu daria tudo que tivesse / Pra voltar aos tempos de criança / Eu não sei
pra que que a gente cresce /se não sai da gente essa lembrança”, ao vivo.
De volta ao nosso oásis, tínhamos que passar pela
estridente Santa Clara com suas metralhadoras-bang-descidinha-daquele-jeito-que-nem-de-camarote
aguento-ouvir-essas-safadezas. E outras. Feitas em público na rua desnuda e
imunda. Entretanto passávamos vitoriosos com as janelas fechadas protegidos do
calor e da música “gastronômica” que explodia lá fora. Gastrointestinômica
(fica mais completa pra se ouvir sentado na privada) no sentido dado por Humberto
Eco de que seja uma música sem objetivo artístico, apenas para satisfazer as
exigências de um mercado do descartável. Os hits
que não acrescentam nada, apenas redizem o que a plateia já sabe e espera com
ansiedade ver repetido ininterruptamente, mesmissíssimamente, enquanto tiram os
pés do chão e balançam as mãos pra cima, segurando uma latinha morna, atrás de
um carro de som alto, rua afora, imaginando que aquilo é música e que o ouvido
de todo mundo é penico.
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Nesse carnaval da volta da campeã Mangueira, sob a inspiração
da menina dos olhos de Oyá, ficou mais evidente de que não somos apenas o que
comemos e o que bebemos; cada dia, sempre mais, a gente é o som que a gente
ouve e se balança.
Publicado na OFF - março/2016