Quando eu era inocente, cria que insônia fosse ficção que os mais velhos inventavam para gozar com a cara da gente. É que adolescentes têm um sono infindo. Custava-nos acreditar que uma pessoa pudesse passar a noite em claro sem ter nada o que fazer rolando para um lado e para o outro tentando dormir. Inadmissível que não aproveitasse a noite toda conectado às redes para teclar com desconhecidos, com os colegas, com ficantes e/ou vendo pornografia. É assim hoje em dia: curamo-nos totalmente da insonolência. Aliás, essa geração não tem tempo para perder com falta de sono e com outras coisas assim tão desimportantes.
Tenho observado como a tecnologia transforma o comportamento das pessoas. Sempre foi assim, claro, desde a invenção do controle remoto – para ser mais contemporâneo – e da evolução dos aparelhos de televisão que hoje em dia não têm mais aquele botãozinho de controle do vertical. Somente quem ficava um tempão roletando a sintonia fina da tevê sabe a sensação do que era não conseguir se conectar naquela época.
Mas é sobre a revolução provocada pela internet que a esta hora da madrugada estou a pensar. É que a conexão foi pras cucuias. Deste modo, não podendo pensar em rede, fico elucubrando solitário sobre o que está acontecendo com a raça.

Creio piamente que a espécie humana, por exemplo, continua evoluindo. Aliás, sou fervoroso darwiniano: acredito na evolução das espécies. Na evolução de todas as espécies. Veja só a quantidade de perfil de anta no facebook. É pandêmico!
Se eu fosse mais velho e minha vigília involuntária mais persistente, certamente eu ficaria pensando em como tudo isso iria terminar. Uma bobagem! Nada termina totalmente: as coisas se transformam. Esse eterno efeito Lavoisier nos permite leituras peculiares sobre a evolução da humanidade. Agora mesmo, nas campanhas políticas para as eleições de outubro, um fenômeno tem colocado as candidaturas todas num mesmo patamar. Refiro-me aos autorretratos que os candidatos se permitem com eleitores mais moderninhos. Parece pouca coisa, mas não é. É que ninguém faz foto com um qualquer (ou será que faz?). O selfie – puristas da língua têm uma birra disso – talvez seja uma espécie de biografia autorizada de todos os envolvidos. O problema é que tudo agora é publicizado na web e aquela máxima do “diga-me com quem andas...” anda tirando o sono de muita gente por aqui, por aí e por acolá.
Publicado na Estilo OFF - setembro/2014.